Acompanhe-nos:

Uma aula de Dorival Caymmi

Tenho nas mãos um CD daqueles que, mesmo antes de ouvir, temos certeza de que é o máximo: Dorival (Pau Brasil). Só pelo fato de sabermos que nele estão registradas dez músicas do grande Dorival Caymmi (apenas uma em parceria com Carlos Guinle), amplia a garantia de que estamos prestes a entrar num mundo definitivamente criativo.
Mas, conhecidos os nomes dos quatro instrumentistas que se entregaram ao trabalho, faz com que tenhamos a certeza de que estamos próximos de ouvir as canções de um compositor que resumiu em canções a picardia da Bahia de Todos os Santos – Dorival Caymmi, ele mesmo (quase) um santo pagão a merecer rezas contritas e celebrações festivas.
Saquem as quatro feras que se uniram para gravar Dorival, o CD: Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo), André Mehmari (piano) e Nailor Proveta (saxofone e clarinete). É ou não é de lascar o cano?
Pois bem, após tantas, digamos, pré-certezas, finalmente iniciei as inúmeras audições das canções, com seus respectivos arranjos, todos eles, sem exceções – eu disse todos! –, instigantes, contemporâneos e regiamente tocados.
Logo de cara, “Dora”. A condução da melodia está a cargo do piano de Mehmari, e não só a melodia, como também os compassos da mais pura improvisação da brasilidade harmônica de Dorival.
A bateria tem a marca registrada de Tutty: a sabedoria de que há hora de ir aos pratos, assim como há hora em que as baquetas devem ficar quase no limite do toque nas outras peças do instrumento – isso tem nome e sobrenome: técnica, sentimento.
A qualidade do som que Stroeter tira do contrabaixo empolga – é “cheio”, pleno de intervenções sentidas primeiro no coração, para só então repassá-las às cordas. Seu toque é sutil, e é assim que ele agrega ritmo ao piano e até mesmo à bateria. Seus improvisos têm a força de seu peso multiplicado pelo número de compassos aos quais se dedica, fazendo-os pulsar em sons graves.
Não são tantos assim os compassos que cabem a Proveta... mas ele faz uso primoroso deles. A certeza de que tem a palheta de seu instrumento na ponta da língua permite que os improvisos venham sempre carregados de desenhos certeiros.
Mas, logo a seguir, em “Milagre”, (quase) tudo muda: Mehmari puxa a intro. Proveta se achega, assim como Stroeter. A melodia vem com Proveta. Tutty diz “presente”! E os quatro seguem fazendo brotar a raiz musical plantada por Dorival.
“Samba da Minha Terra” inicia com um diálogo entre piano e clarinete. “Enlouquecidos”, eles “brincam” de fazer soar juntas as notas soltas de seus instrumentos. Enfim, dando pinta de que a “loucura” findaria na intro, os dois se lançam à... melodia. Meu Deus! O resultado é uma rara reativação do samba composto por Dorival em 1937 – reinvenção da inesgotável obra-prima.
E como virtuosos instrumentistas e amigos de longa data que são, debruçando-se sobre uma obra preciosa, tocando-a com o que têm de bom e de melhor, redescobriram as canções de Dorival Caymmi.
Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4.

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.