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Um espírito libertário

Rafa Castro já está em seu terceiro álbum: Fronteira (independente, distribuição da Tratore). Apesar de seu talento, não são tantos assim os que já ouviram falar dele. Isso dói.
É cruel saber que um jovem pianista, compositor e arranjador será “forçado”, por um mercado rentista, a um confinamento que poderá mantê-lo distante do grande público. E as rádios? E as TVs?, indagam vocês. Ora! Essas? Pois sim!
Diante de tão obtusa “condenação”, Rafa Castro dá de ombros e vai em frente. Para ele tais barreiras existem para serem transpostas – não há cadeado que prenda um espirito libertário.
No CD, cinco das dez faixas são instrumentais. Tudo começa com “Casulo”, de Rafa, em que ele assina o arranjo e toca piano. A intro, além do piano, conta com um trio que segura a onda com Rafa em outras faixas: Gabriel Altério (batera), Igor Pimenta (baixo acústico) e Luiz Ribeiro (violão). Conta também com um time de cordas, cujo arranjo é de Neymar Dias, formado por violoncelo (Vana Bock), violinos (Ricardo Taka e Marcos Scheffel) e viola (Daniel Pires), além da participação especial de Teco Cardoso (sax soprano).
Rafa tem seus vocalises somados ao som dos instrumentos. A partir daí, sente-se a concepção sonora da mixagem. E eu, que costumo não gostar quando se equaliza a voz no mesmo plano dos instrumentos, dou a mão à palmatória: mesmo levando-se em conta o timbre da voz de Rafa, naturalmente amalgamável à sonoridade dos instrumentos, o som está supimpa! E assim os instrumentos (a voz sendo um deles), os arranjos e as canções se dão a criações eletrônicas, composicionais, harmônicas e poéticas.
Tanto nos arranjos quanto nas interpretações, não há falsas delicadezas, tampouco facilitações redutivas. Quando o pau come, é pra valer; quando o momento é lírico, o romantismo brilha; e quando parece popular... pode ser erudito.
Mas voltemos ao arranjo de “Casulo”: a bateria tem toques descontinuados nas peças; notas musicais parecem desconexas. Apenas parecem, pois o que se ouve é uma proposital “desconexão” – pura sabedoria. A voz aguda de Rafa vem doce. Logo o violino se achega a ela e também às notas do piano e aos toques da bateria. O sax de Teco Cardoso volta a arrasar.
Se assim começa o álbum, não necessariamente assim acaba, pois o que começa luminoso pode muito bem chegar ao fim ainda mais admirável.
“O Barqueiro da Noite” (RF e Thomaz Panza) conta com a voz preciosa de Mônica Salmaso. Intro com cordas. Violoncelo em destaque. Melodia rica. Rafa fazendo vocalises é mais um instrumento a serviço do arranjo, que finaliza com ele pronunciando: “(...) A criança, mesmo ingênua, sempre aguarda o monstro no escuro. E pior, desconfia dos truques da mãe, por já saber que um dia ele de fato virá (...).” Enquanto a sabedoria infantil saca o lance, a prepotência adulta finge não ver seus monstros agônicos.
Como dói saber que no Brasil de Rafa Castro muitos talvez não tenham a oportunidade de conhecê-lo para também admirá-lo.
Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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