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Surpresa boa

Foi agradável a surpresa que experimentei ao ouvir o CD independente Contos de Beira D’Água, de Filpo Ribeiro e a Feira do Rolo.
O paulistano Filpo é o compositor de oito das dez faixas do disco (parcerias com Nilton Júnior, Marcos Alma e Vlad, e quatro canções só dele, assim como dele é uma adaptação de um tema de domínio público). Além disso, é o solista vocal e toca rabeca, viola caipira, guitarra e pífanos.
O grupo Feira do Rolo conta com o multi-instrumentista e compositor Marcos Alma, o percussionista Guegué Medeiros e o trompetista e percussionista Diogo Duarte.
São quatro caras dispostos a tocar o clima resfolegado do baião, do xote, da ciranda, do forró e do coco. Partindo da levada tradicional da música nordestina, valem-se das sonoridades da zabumba, do triângulo, da sanfona, da viola caipira, da rabeca, dos pífanos, do padeiro, do ganzá e do reco-reco, acrescendo guitarra, trompete, contrabaixo acústico e Rhodes. É a tradição deixando-se enriquecer pelas feições rejuvenescedoras, harmônicas e melódicas a partir dos quais a música brasileira projeta e amplia sua diversidade.
E, assim, Contos de Beira D’Água adquire importância maior do que simplesmente ser um álbum de pegada nordestina. Ele é bem mais do que isso. O coro está comendo na pele da zabumba e no ferro do triângulo, a sanfona resfolega, o pífano sopra o ar ancestral, a rabeca ressoa a (des)afinação mais bela que há para se ouvir. Sim. Mas não só.
O trompete, mais a rabeca e o Rhodes, tendo a cortejá-los a zabumba, o triângulo, o baixo e a bateria em “Forró Pra Alice” (Filpo Ribeiro), único número instrumental do CD, sugere a poeira levantando pó do chão de terra batida. Seu intermezzo dá direito a improviso também do Rhodes, cuja concepção musical resume a predominância do que pensam e tocam a Feira do Rolo e Filpo Ribeiro.
A voz de Filpo, a princípio, soou-me como um peixe estranho à água onde nada. Impressão que durou não mais do que duas músicas. Em “Chegue Devagar”, de sua autoria, Filpo se encaixa com precisão no romantismo do baião que, num ritmado saboroso, embalança: “Ô saudade cristalina/ Correndo pro mar/ Faz revessa no meu peito/ Deixando um rastro no leito/ Um rio seco no meu cantar (...)”.
Saboroso também é “Melado Venâncio” (Domínio público, adaptado por Filpo Ribeiro). Lundu, com rabeca, baixo e zabumba entregando, de bandeja, a melodia para a qual Filpo se dá ao canto.
Viola e pífanos chamam o ritmo. Juntos abrem espaço para Filpo cantar, dele e Nilton Júnior, “Contos de Beira D`Água”, a faixa-título. A viola ponteia. O baixo engorda o corpo do baião. O triângulo segura as pontas. E a beleza prossegue rumo à brasilidade explícita: “Te peguei na minha lira/ Vi que te tinha inteira/ E esperei à noite, amada/ Te ter na brincadeira (...)”.
No CD a nordestinidade atiça o imaginário popular. Sente-se a batida da alpercata no chão levantando poeira e vendo o pó virar cortina, quase fazendo sumir os corpos que dançam no forró.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4
 

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