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"O fantasma Geraldo Vandré", por Aquiles Rique Reis

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        Somente aos fantasmas é concedido o direito de serem indecifráveis. Tenho medo deles. Aquela figura envolta num lençol e carregada de medos esvoaçantes sempre me causou arrepios. Arrasto comigo, a contragosto, um verdadeiro time de fantasmas. Sou refém de muitos medos, alguns não ouso sequer lembrar. Mantenho pavores no limbo de minha alma assustada e medrosa. Estes não ouso olhar de frente, sequer de lado. Finjo ter com eles um pacto, um acordo de paz tão falso quanto as boas intenções do Antônio Carlos Magalhães dizendo-se preocupado com a pobreza brasileira. ACM sabe, tanto quanto eu, que a pobreza e os fantasmas são criações nossas.

        De um tempo para cá tenho me empenhado em exorcizar alguns demônios que me tiram o sono. É preciso falar com eles para não arrastá-los feito correntes, vida afora.

        Mesmo assustado, falei para um dos meus fantasmas: “A primeira vez que eu ouvi suas músicas tive a melhor das impressões, achei que eram canções envoltas num lirismo tão doce quanto suave e, ao mesmo tempo, carregadas de uma preocupação social emocionante”, disse eu, como quem vomita. “Pronto, consegui quebrar o gelo”, pensei.

Agora era a vez de ele falar. Isso é um dialogo, caramba. Só que “fantasma” não fala. Ele só ri, ao perceber a nossa dificuldade em tratar com ele. Sendo assim, continuei: “Nno meu tempo de ginásio, eu ouvia no rádio de pilha: “Fica Mal Com Deus”; “Quem Quiser Encontrar o Amor” e “Aruanda”. Algum tempo depois vi, embevecido com a trilha sonora genial que você compôs, “A hora e a Vez de Augusto Matraga”.

    A essa altura os militares já haviam tomado o poder e estávamos divididos entre o bem (nós) e o mal (os militares). Você era um compositor de músicas emocionantemente românticas. “Pequeno Concerto que Virou Canção” era um hino ao amor. “Canção Nordestina” era um canto de louvor a um povo sofrido lutando por sua terra”. Consegui força para seguir com aquele papo emocionado: “Você compôs “Disparada”, junto com o Theo de Barros, e depois veio o Festival Internacional da Canção, da TV Globo, em 1968. '(...) Há soldados armados, amados ou não (...)'. Do palco do Maracanãnzinho você viu a estudantada transformar em hino da resistência à ditadura, àquela altura mais feroz do que nunca, a sua “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores”. “Como é que você se sentiu sendo guindado ao posto de líder de uma juventude carente de respostas às suas inquietações, dúvidas e certezas políticas?”
    
    Senti que meu “fantasma” estremeceu. Tomei coragem e segui: “Depois da decretação do AI-5, que pegou você em Goiás, numa excursão com o Quarteto Livre, você se escondeu no Rio e depois fugiu de carro para o Uruguai, de onde partiu para um autoexilio. Primeiro no Chile e depois na França. Diga-me, sinceramente, você foi torturado quando voltou ao Brasil em 1973? Esses momentos de depressão crônica e profunda que fazem você volta e meia procurar tratamento psiquiátrico no Hospital da Aeronáutica são fruto da tortura física e/ou psicológica? Você pensou bem e mudou sua opinião sobre os militares que tomaram o poder, em 1964? Foi você mesmo que compôs a música “Fabiana”, em homenagem a FAB? Com todo respeito, eu não gosto, sabia? Prefiro você compondo “Porta-estandarte”.

      Geraldo Vandré, para mim não importa se você era de esquerda e detestava os militares e agora é de direita, apóia o Brigadeiro falastrão Walter Bräuer e ama de paixão os militares. Na verdade, isto não tem a menor importância; seja o que você quiser e puder ser, é um direito incontestável seu, mas... Mas bem que você poderia voltar a compor boas músicas de amor, Vandré. Grave-as. O Brasil merece ouvi-las.

PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.



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