Desde sempre ela foi assim, intensa. Negra tinhosa. Assim é Elza Soares. Nada lhe sai de graça. Tudo sempre lhe foi penoso. Guerreira, cada canção é hino de louvor a batalhas incontáveis. Seu jogo nunca é um a um. O placar, nem sempre favorável, não abate nunca quem sabe, como ela, que os moinhos são mera paisagem. Cada placar favorável parece, no entanto, mentira que deixou saudade e transforma sua história em poemas de rimas ricas.
Ama, canta seu canto negro de força ancestral com voz macia de mãe. Canta, ama seu canto rascante com voz de negra dos cortiços. Canta como o canto que sai da voz do Cacique de Ramos. Canta com voz insaciável de amante indócil. Canta com vozes de muitas numa só. Voz brasileira de mulher sofrida canta, canta, canta mais...
Sofreu, chorou por seu filho morto tão pequeno. Luz negra que cega como veneno atirado na retina. Queima-lhe toda a alma. Era o seu guri, olha aí. Só quem caiu pode levantar para cair de novo. Uma queda nunca haverá de ser como a outra. Cada levantar será como um caderno novo em branco, pronto para ser preenchido pela vida.
Só segue na vida quem usa a arma dos apaixonados. O som da incoerência louca é melodia para ensurdecer otário. O cantar suave de um passarinho revela o amor e faz explodir no ar o manto colorido da paixão. Ninguém poderá entender o motivo porque, como o redemoinho ensandecido, todo amor revira as entranhas dos amantes. Com as entranhas abertas ao prazer, nem nenhum tresoitão colocará na poeira do chão o sangue de dois amantes banhados de suor e gozo. Será sempre deles, sempre será só deles a cama de alecrim banhada por gotas de orvalho purificador.
A negra gostosa e o campeão. Nosso Mané, o Garrincha. Nossa Elza, a mulata. Aos dois o amor era proibido por moralistas hipócritas e por marionetes de moral velhaca. Os ventrículos de um papo furado fizeram-se árbitros de uma partida que mal começava. Mas o torto genial e a negra gostosona seguiram em frente para outras paradas, novas paragens... Haja mundo para viajar, se refugiar. Mas de que se escondiam Elza Soares e Mané Garrincha? Deles próprios. Da paixão que os assustava mais que os caretas de ocasião. Do calor que consumia suas emoções mais do que a opinião de débeis mentais puritanos de plantão.
O canto segue com Elza Soares. Sua vida continua aos saltos. Sua voz não cala. Sua paixão exala perfumes de mulher madura. Porém, há uma fração de segundo que sempre inebria e causa vertigem. A luz cegou, a vista turvou, e a queda do palco no Metropolitan, Rio de Janeiro, foi inevitável. Por um tempo um colete de aço prendeu a ginga da guerreira. Mas quem bem a conhecia sabia que ela, em fevereiro de 2000, estaria em gloriosa forma sobre um salto 20, no Copacabana Palace, onde foi indicada pela BBC de Londres como representante do Brasil na série de espetáculos Millenium Concerts que aconteceu naquele ano.
Suingue no sangue que segue generoso irrigando o corpo bem conservado de nossa dama negra. Peço aos deuses por você, Elza. E digo: desde menino em Niterói, eu sentia uma alegria imensa – chegava a acreditar que tudo ainda poderia dar certo – quando a ouvia cantar “Se Acaso Você Chegasse” no rádio cheio de válvulas colocado na mesinha de cabeceira. E assim é até hoje quando a ouço cantar emocionada e emocionantemente “Meu Guri”, de Chico Buarque. A emoção renovada pela vida que segue em frente, as lembranças fazendo nosso futuro.
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.
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