Luca Bulgarini acaba de lançar Até Breve, pelo Instituto Musical Beethoven, como prêmio concedido ao vencedor do Art Supply de Música 2006.
O moço começou a estudar violão em 1984 inicialmente com Elza Nogueira, depois com o tão fenomenal quanto saudoso Paulinho Nogueira. A escola deste mestre se faz notar nitidamente não só no tocar do violão, como também no jeito de harmonizar e de construir linhas melódicas. Bom aluno, Luca decola para alcançar a música, e ela não se faz de rogada: toca-o com sua força mágica, fazendo-se linda para ele e para os que os escutam. Seduz-nos.
O CD começa com Até Breve (Luca Bulgarini). Que bela composição! Harmonia habilmente concebida. Salta aos ouvidos a sonoridade pura de seu violão. Notas limpas. Emoção no início lento dedilhado. Vigor quando entra o ritmo.
Segue-se À Nossa (Luca Bulgarini). Arpejos em seqüência, e vem a flauta tocada com pureza por Liliana Bertolini. Fraseados que se alternam entre uníssonos e notas abertas; bordão que marca o ritmo enquanto a flauta contraponteia sincopada. Bom duo.
Marota (Luca Bulgarini). Linha melódica triste, de extrema beleza. De tão pungente, é o ápice do CD. Como de outras vezes, o início arrítmico das canções dá lugar à batida cadenciada recurso muito bem utilizado que se revela a marca registrada das composições de Luca.
Fé Cega, Faca Amolada (Milton e Ronaldo Bastos). Tocada pelo Trio Cor das Cordas, integrado por Edinho Godoy, Milton Daud e pelo próprio Bulgarini. O arranjo deles é extremamente criativo. A percussão (Roberto Biela) contribui para sua beleza. As dezoito cordas se mostram únicas e vigorosas, baseadas em bordões e em arpejos. A melodia solada em notas precisas realça a beleza da canção. O intermezzo, já bastante conhecido no arranjo original feito para a gravação histórica de Bituca, ganha harmonização inusual, propícia a ricos improvisos, quando a pegada dos três violonistas chega a lembrar aquilo que de melhor faz o Duo Fel.
Implorando é um belíssimo choro de Toquinho. O arranjo dos dois é digno de se destacar no repertório da música instrumental brasileira. Eles tocam em terças, alternam melodias e se complementam em frases que abrem e logo se reencontram no tema principal, tão lírico... tão plangente.
Bachianinha nº1 (Paulinho Nogueira). Brilhante composição, arranjada pelo autor. Nela, a brasilidade vibra na ponta dos dedos do músico que a interpreta, e a beleza do som do mestre (saudades!) é imortalizada por Luca. Inspirado é o momento em que a magia, reverente, se curva em mesuras mil àquele que a cria feito um deus.
Comedimento é a marca do toque do violão de Luca Bulgarini. O que só valoriza sua técnica, seu desempenho, sua composição.
Disse (Luca Bulgarini e Silvia Martins). A guitarra de Marcos de Lucas, com seus solos inspirados, brilha enquanto a base feita pelos violões se faz perceber por meio de acordes bem dedilhados, nos quais as unhas dos dedos se fazem pressentir sem que firam ouvidos.
Itaúnas (Luca Bulgarini). A introdução mostra o sax de Daniel Montanaro e o violão de Luca acompanhados pelo baixo acústico de Fernando Gualberto. Uma tocata lírica, suavemente ritmada por Edu Batera. Suingue contagiante. Até que o sax volta em intermezzo sobre o som do violão. Outro belo duo.
São Lourenço (Milton Daud), com o Cor das Cordas. Os três brincam de fazer boa música. A percussão de Roberto Biela dá o tom e os violões deitam e rolam, enquanto falam a língua da música.
Sabiá Laranjeira (Luca Bulgarini e Silvia Martins). O violão ponteia, a sabiá gorjeia, a moringa fala d"água à música... Não poderia haver melhor encerramento do disco: sete minutos e onze segundos de emocionada homenagem à natureza.
Que esse Até Breve de Luca Bulgarini seja como um até logo. Que o violonista evolua, como já demonstrou poder fazê-lo, e que um segundo CD venha para comprovar que suas mãos são de fato mãos de um virtuoso.
Feliz Natal!
Aquiles Reis
Cantor MPB-4
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