Antes de qualquer coisa, uma pequena explanação: a Máquina de Fumaça é um item indispensável para qualquer iluminação de palco, pois ajuda a realçar os efeitos das luzes e a criar um ambiente propício para shows.
Ela produz fumaça a partir de uma glicerina líquida especial que, aquecida por uma resistência, se transforma em vapor que é lançado no ambiente por intermédio de ventiladores.
No começo do seu uso, as glicerinas causavam mal-estar nos participantes dos espetáculos, mas com o tempo, surgiram glicerinas com maior qualidade, que não irritavam a garganta nem os olhos, além de ser possível escolher diversos aromas: tutti frutti, maçã, menta, uva, morango e neutra, dentre outros.
Geralmente as pessoas fazem confusão, achando que a fumaça nos shows é produzida por gelo seco. Há diferenças: a Máquina de Gelo Seco trabalha com o material indicado no próprio nome, e a fumaça proveniente dela fica rasteira, rente ao piso, sendo mais usada como efeito, principalmente, em filmes (aqueles de terror...) e peças de teatro.
Já na Máquina de Fumaça, o vapor se dispersa em várias direções, ocupando todo o ambiente, do piso ao teto. Por isso ela é mais indicada para iluminação de shows e espetáculos que usam espaços cênicos, sem contar que a Máquina de Fumaça tem um custo bem menor.
Entendido, pessoal?
Então vamos lá: como o MPB4 sempre teve bons técnicos de som e de luz em sua equipe, em nossos shows sempre buscávamos usar as melhores tecnologias disponíveis. Dentre elas, a Máquina de Fumaça, geringonça que dava ao nosso iluminador oportunidades para belos efeitos de luz.
É verdade que quando começamos a usar esta nova tecnologia, o ambiente enfumaçado não era lá muito confortável: os olhos ardiam e tínhamos vontade de tossir. Mas como era bonito... Tudo em nome do sowbizzzzzz!
Mas teve um dia... Sempre tem um dia... Nosso técnico de iluminação era o “Tatá”, que trabalhava conosco havia tempo.
E lá fomos nós para um show na histórica Itanhahém, situada na região metropolitana da Baixada Santista, a aproximadamente 100 km da capital, São Paulo. Com suas belas praias, Itanhahém foi a segunda cidade brasileira a ser fundada, em 1532. Magro também é cultura.
Chegamos lá ainda a tempo de pegar uma praia. Almoçamos, fizemos a tradicional sesta, e fomos passar o som, rotina necessária para o artista que quer fazer um bom trabalho.
Estávamos, nessa ocasião, acompanhados da nossa banda, músicos que também trabalhavam conosco há algum tempo. Aí se torna mais importante a “passagem de som”. Além das quatro vozes do MPB4 ficarem equilibradas para cada um de nós, e para cada um dos componentes da banda instrumental, é preciso que todos ouçam os volumes num bom balanceamento. Todos. Isto sem falar no som para o público, que deve ficar perfeito.
É a rotina, e rotina muito importante na nossa vida profissional. Depois de checar os equipamentos de luz e som, voltamos para o hotel.
Aí é aguardar a hora de voltar para o clube, já devidamente paramentados com nossas roupas de trabalho, ir para o camarim, dar uma última aquecida na voz e no corpo, que ninguém é de ferro...
– “E com vocês... o MPB4!!!”
Nosso show, como sempre, procura colocar no roteiro sucessos antigos e as músicas que fazem parte das novas gravações. Naquele ano, uma de nossas músicas que fazia sucesso era a gravação de “O Cafona”, composição dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle.
Era uma abertura de show forte, que começava com o refrão da música:
“Ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê,
Eu quero. eu quero, eu quero, eu quero
Eu quero ver, eu quero ver
Eu quero
Eu quero ver, eu quero ver, eu quero
Eu quero ver, eu quero ver
O seu retrato, seu reinado, o seu, recado
Eu quero ver”.
E a música seguia com um acompanhamento vigoroso da nossa banda, e terminava com a repetição da frase “Eu quero ver, eu quero ver, eu quero”, num final que arrancava aplausos.
É claro que, além do forte arranjo da banda e da nossa interpretação, contribuíam para o sucesso dessa abertura um som perfeito e uma luz sincronizada com o ritmo da música e enriquecida pelos efeitos da Máquina de Fumaça.
Enriquecida??? Talvez demais!!!
O fato é que entramos no palco, iniciamos a música e pouco a pouco a fumaça começou a se tornar densa demais, a tomar conta de todo o palco, a ponto de, em certo momento, eu não conseguir enxergar meu companheiro do lado... Eu só?
Num determinado momento da música, ouvi, na platéia, uma voz de criança gritando:
– “Mãe, eu vi um ali!!!”
A moderna Máquina de Fumaça havia quebrado e, não atendendo mais ao comando do nosso iluminador, ajudada pelos ventiladores, lançava furiosamente, e para todos os lados, rolos e rolos de fumaça, transformando o palco numa bola intransponível de densa neblina. Que agonia!!!
O pior é que ninguém conseguia parar a maldita máquina. O suplício só acabou quando “Tatá”, saindo do seu posto e caminhando resolutamente até o palco, enfrentou o “monstro”, desligando-o da tomada!
Depois de alguns estertores e tosses enfumaçadas, o “bicho” sossegou! Nessa altura, não sei como, a música estava terminando e, em lugar dos aplausos esperados, ouvimos um grito solitário vindo da platéia:
– “Eu também quero ver!!!!”
Ai, a modernidade...