Não é possível contar a história da música brasileira sem mencionar o MPB4, de tanto que este grupo está atrelado ao nosso cancioneiro e também ao próprio país das últimas quatro décadas. Por isso mesmo já estava mais do que na hora do grupo gravar seu primeiro DVD – o que aconteceu nos dias 16 e 17 de maio deste ano, no Teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo – uma realização da MP, B Produções com o Canal Brasil, lançado agora no mercado pela EMI Music. A ocasião não poderia ser mais oportuna para tal, afinal, será o fechamento glorioso da comemoração pelos seus 40 anos de carreira que se iniciou oficialmente no ano passado, com o lançamento da coletânea dupla “MPB4 – 40 anos contra a corrente”, reunindo 40 faixas, entre sucessos e raridades, com uma minibiografia encartada.
Agora a comemoração é no palco, onde o grupo intercala grandes clássicos de seu repertório e novidades, com direito a canjas deliciosas de amigos especialíssimos que há muito freqüentam seus discos, contribuindo para que sua discografia seja uma das mais expressivas da MPB de todos os tempos – em termos de melodia, harmonia, arranjo vocal e letras. Sim, letras. O MPB4 sempre teve o que dizer. Na época da ditadura, foi o grupo mais combativo (e perseguido) desse país; depois da abertura, foi se renovando, lançando novos compositores e variando as temáticas e os conceitos de seus álbuns.
Desta vez, o que se vê no palco e no DVD é uma mistura de tudo. Canções de protesto, grandes sambas, músicas românticas... às vezes tudo misturado, graças a uma dupla leitura que existe em alguns casos. Assim, Nasci pra sonhar e cantar – pérola suave/existencial de profundo lirismo de Dona Ivone Lara, Morena dos olhos d’água (canção delicada de Chico Buarque, que reaparece com arranjo à capella) - e a newbossa Faz parte do meu show, sucesso de Cazuza, convivem com as nervosas (infelizmente, ainda atuais) O ronco da cuíca e Galope – respectivamente, de João Bosco & Aldir Blanc e Gonzaguinha – seus grandes fornecedores de repertório pela vida afora. E tem mais!
As influências latinoamericanas do grupo estão presentes em Por quem merece amor (linda canção do cubano Silvio Rodriguez, vertida para o português por Miltinho) e San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant). A inédita Samba antigo (Miltinho / Mário Negrão e Paulo César Pinheiro) não fica por baixo num roteiro onde brilham momentos antológicos da música brasileira lançados pelo conjunto, como a canção que abre o show, Amigo é pra essas coisas (de Silvio da Silva Jr. & Aldir Blanc, que consolidou a carreira do grupo no II Festival Universitário, de 70), mais Lamentos (Pixinguinha & Vinicius, primeira canção do MPB4 a tocar no rádio, em 66), De frente pro crime (Bosco & Blanc, de 75), A lua (Renato Rocha, de 80) e, diretamente dos anos de chumbo, Pesadelo (Maurício Tapajós e P. C. Pinheiro, de 72) – que só passou pela censura, porque esta era muito burra: “Você corta um verso eu escrevo outro / Que medo você tem de nós, olha aí...”.
Além de Samba antigo, outra novidade do roteiro é o belo samba Refém da solidão (Baden Powell e Paulo César Pinheiro), que eles nunca gravaram, mas sempre usaram para esquentar suas vozes nos camarins, antes dos shows.
Quanto às participações no DVD, há amigos novos e antigos da melhor qualidade. No primeiro time, Zeca Pagodinho (em Olé, olá, o primeiro grande sucesso do grupo, de 66) e a novata Roberta Sá (que convidou o grupo para participar de seu primeiro CD, Braseiro, na faixa Cicatrizes, e agora tem o convite retribuído pelo grupo, no palco, para entoarem juntos o mesmo samba de Miltinho e Paulo César Pinheiro, música-título do cultuado álbum do MPB4 de 72).
No time dos velhos amigos, seus contemporâneos, que sempre forneceram repertório para o conjunto, estão dois cantores /compositores e um grupo – todos muito especiais. Para começar, Milton Nascimento – que chegou a ser agraciado pelo conjunto em 93 com um álbum inteiro dedicado somente às suas canções. Ele divide os vocais com Aquiles, Magro Waghabi, Miltinho e Dalmo em Cebola cortada, dos compositores nordestinos Clodo e Petrúcio Maia, sucesso também na voz de Fagner. O Quarteto em Cy – companheiro de tantos encontros – inclusive do histórico disco /show Cobra de vidro (78) – aparece bisando a parceria vocal no choro-canção Falando de amor (Tom Jobim), sucesso em 97, quando foi tema da telenovela Por amor, da TV Globo.
Finalmente, como não poderia deixar de ser, Chico Buarque também está no DVD (no show não pôde comparecer por problemas de agenda). Ele gravou sua participação no Estúdio Discovery (RJ), cantando Roda viva - com o antológico arranjo original de Magro Waghabi, que consagrou definitivamente a carreira dos cinco, conquistando 3º lugar no III Festival de MPB da TV Record, em 67 – e Quem acreditou na vida como eu, música inédita do amigo Sidney Miller, outro compositor onipresente na carreira do grupo. Chico já chegou a considerar-se o “MPB5”, pois o grupo era seu acompanhante oficial em seus primeiros 10 anos de carreira, fora o fato de acumular mais de 30 canções suas gravadas pelo grupo em todos esses anos.
De quebra, há a participação de um amigo veterano muito especial neste DVD: Cauby Peixoto – de quem Dalmo Medeiros, novo integrante do grupo (no lugar de Ruy), é sobrinho. Eles criaram um arranjo especial para seu clássico Conceição para a entrada do cantor no palco, e em seguida, recriaram a cinco vozes o samba Última forma, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, feito originalmente para Elis Regina, que se recusou a gravar pelo fato da letra se encaixar “demais” na situação de rompimento amoroso que ela vivia na época. Melhor para o MPB4, que se apossou da música em 72 com a maior tranqüilidade, e graças aos novos recursos tecnológicos de dobrar vozes em estúdio, criaram uma gravação de raro peso vocal na discografia brasileira.
O show de gravação do DVD teve roteiro e direção geral de Túlio Feliciano, arranjos e direção musical de Magro Waghabi (que também esteve nos teclados). Além dos vocais, Miltinho contribuiu também com seu violão, assim como Aquiles e Dalmo na percussão. A banda contou com a presença de Leandro Braga (piano), João Faria (baixo), Pedro Reis (guitarra e bandolim), Marcos Feijão (bateria e percussão) e Zero (percussão). Trata-se de um show de acerto de contas com o passado, rumo ao futuro, o qual, a única coisa que se sabe realmente, é de que jamais vão abrir mão da qualidade, pois isso sempre foi um ponto de honra do MPB4 nas suas 40 primaveras.
Rodrigo Faour (Maio/2006)
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