Capa do CD - Literol e Interior - Sérgio SantosO som vem do mar ou vem da montanha? Vem banhado em sal ou vem envolto em bruma? O som tem o viés da prumada ou o feitio da enxurrada? Som que envolve a moda da viola e o canto da puxada de rede do pescador – tão distantes um do outro, próximos na profunda fortaleza; diferentes um do outro, juntos no mistério que oculta os sonhos. Litoral ou interior? Sertão ou mar? Ciranda ou forró? Zabumba ou viola?
São perguntas feito estas, são conceitos feito estes que o talento do compositor, arranjador, violonista e cantor mineiro Sérgio Santos se dispôs a cantar para esclarecer. E o fez de forma tão singela, de maneira tão sentida, que a nós cabe olhar cada acorde e cada verso como um “instigamento” à brasilidade musical.
Com Litoral e Interior, Sérgio Santos abriu portas à sutileza dos detalhes. A ele importa a particularidade que mais represente o universo do mar e do sertão, do marinheiro e do vaqueiro, da ciranda e do baião. E o faz com sua música, com sua clareza mineira de que vale mais calar, quando a palavra pode sobrar; e cantar, quando ao verso cabe o papel de facilitar para alumiar.
Pelas mãos de Sérgio chegamos ao mar e o vemos instrumento; com sua música vamos ao sertão e o sabemos acorde perfeito maior; com suas harmonias ricas em conceitos, percebemos que o interior sonha enquanto o litoral acorda; que o mar vira, a maré desvira; que o pescador puxa rede lá como cá; que o canto desses dois cantos é belo como o canto da sereia alucinando o pescador ou como o grito do malvado carcará, puxando o umbigo dos burregos novinhos que não podem andar.
Litoral e Interior tem quinze faixas, todas de Sérgio Santos (cinco em parceria com Paulo César Pinheiro), que a sua sabedoria, somada à do produtor e contrabaixista Rodolfo Stroeter, transformou numa suíte de campeiros e pescadores.
Tendo a voz e o violão de Sérgio como ponto de partida, as músicas foram dadas à interpretação de grandes instrumentistas: Tutty Moreno (bateria), André Mehmari (piano e acordeom), Teco Cardoso (flauta e sax), Fabio Cury (fagote), Luca Raele (clarinete), Zeca Assumpção (contrabaixo), Éser Menezes (oboé), Jota Moraes (vibrafone), Marcos Suzano (percussão) e de uma orquestra de cordas (oito violinos, três violas, três violoncelos e dois contrabaixos).
A acertada combinação de melodias e harmonias ricas, somadas a letras inspiradas e a grandes performances dos instrumentistas convidados torna o disco, que mescla seis músicas instrumentais com sete com letra, planetário e simples; tenso e terno.
Para as seis instrumentais, Sérgio dividiu os arranjos com André Mehmari; para as com letra, Sérgio arranjou cinco e Dori Caymmi, um. E, para completar, ele ainda convidou Mônica Salmaso para, com sua esplêndida voz, fechar o CD.
Com todos trabalhando para substanciar tal fascinante tarefa, Litoral e Interior é mais do que um disco, é um documento musical que expõe um pouco de um Brasil do qual se sabe muito da espuma, mas pouco do profundo.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
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