Alma Mia - Leni AndradeNão sei dizer nem explicar como tudo se deu. Era noite ou era dia? O relógio marcava uma hora qualquer. O sol se confundia com a lua. A cadeira balançava suave. Não parecia um início nem mesmo um fim. A chuva deu lugar à lua. Meu coração flutuou. Minhas mãos enfraqueceram. Senti medo? Senti dor? Havia uma súplica a fazer, uma lágrima a derramar? Havia no peito a esperança de que uma neblina suave viesse para me proteger?
Nada sei. Apenas sinto a voz se agigantar bem à minha frente. Uma voz clara como a alma que a liberta. Voz aveludada que me fascina. Nada sei, mas sinto que todo sentimento desabrochará daquela voz. A excitação que ela provoca dá vida à eternidade que parece estar para sempre e definitivamente consentida desde então. Às vezes dilacerada, noutras delicada, a voz soa madura, mas plena de um frescor quase juvenil.
A voz que tanto me sensibilizou é de Leny Andrade cantando no CD Alma Mia (Fina Flor) – glorioso desfile de boleros, catorze exemplares do melhor do gênero. Pouco conhecidos, a maioria; sucessos, alguns; todos plenos de duradoura modernidade. (Leny morou mais de cinco anos no México, daí a paixão pelos boleros e por seus maiores compositores: Gardel, Manzanero, Carrillo, Lecuona, Arturo Castro, Pedro Junco...)
Ela conhece o caminho das pedras. Sabe como poucas se juntar aos que creem em seus sonhos musicais. Feito cigana lendo a mão, os traçados das palmas lhe vêm claros. Tal capacidade fez com que buscasse o pianista Fernando Merlino e a ele confiasse a criação dos arranjos e sua regência. E ele buscou cordas e sopros e os pôs ao lado da bateria, do baixo e de seu próprio piano. Este naipe soou como se as notas falassem que ali estavam para ser momentos de rara beleza.
Para cantar “El Dia En Que Me Quieras” (Carlos Gardel e Alfredo Le Pera), a primeira faixa do álbum, Leny pôs na mesa todos os seus trunfos. Amparada pelas cordas, começou num tom em que seus graves eram postos à prova – e ela passeia por eles com resoluta firmeza. Quando tudo era grande encanto, eis que ela vai para uma oitava acima: é quando demonstra seus precisos agudos. Completa. Meu Deus!
Um dos mais lindos momentos do CD é quando, de início, apenas com o piano, Leny Andrade interpreta “Nosotros” (Pedro Junco). A emoção transparece tão linda quanto solitária. Logo o contrabaixo vem, e a seguir é a vez do trompete se juntar a eles. De arrepiar.
Outro belo momento é “Entonces” (Arturo Castro). As cordas e o piano iniciam. Leny surge límpida. Um intermezzo de piano e baixo acrescenta picardia ao sentimento.
“Eclipse de Luna” (Margarita Lecuona) tem belo solo de sax e, principalmente, tem Leny fazendo seus incomparáveis scats vocais, vocalizes que já haviam dado o ar de sua graça em “Lluvia En La Tarde” (Arturo Castro).
Alma Mia é um trabalho solar de Leny Andrade. Ao concebê-lo, o fez por se sentir plena para tal. Seu desempenho é digno de uma grande dama da música planetária.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
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