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"Você corta um verso, eu escrevo outro...", por Magro Waghabi

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A história do MPB4 contra a censura foi um eterno jogo de perde e ganha. Assim como outros artistas e intérpretes, vivemos esse perigoso jogo sempre no limite. Autocensura, nunca!
É claro que naqueles anos cinzentos a censura trabalhava com algumas armas poderosas, dentre elas a pressão econômica.
Não havia organismos governamentais de apoio à cultura e os projetos artísticos eram financiados pelos próprios artistas que, para conseguir colocar os shows nos teatros, faziam empréstimos bancários a serem pagos com a renda das bilheterias. Mas para um show entrar em cartaz, havia um pequeno “porém”: a censura prévia.
Todo espetáculo para poder estrear, tinha de ser examinado pelos censores que assistiam a uma apresentação exclusiva, e, após esta apresentação, liberavam ou não um trabalho que já havia consumido tempo e dinheiro dos artistas. Liberar era a palavra! 
Era assim, meninos.
Começava o jogo: nosso subterfúgio – brincar com fogo – consistia em fazer uma apresentação prévia muito ruim! Tão ruim que os censores não entendiam nada, do que era cantado ou falado, por causa do som propositadamente distorcido. Penalizados, acabavam liberando o show com a certeza de que ele seria um fracasso de público.
Eu disse “brincar com fogo” porque o revide após a constatação do sucesso da temporada era cruel, a censura econômica: fechavam o teatro e tínhamos de tentar um diálogo com os censores para negociar cortes e continuar a trabalhar para sobreviver. Os cortes eram variados, desde palavras a músicas.
Num dos shows, por suspeito, foi questionado um solo de violão do Miltinho. Em outro, por ainda mais suspeito, desconfiaram de uma fuga da Bachiana n⁰8, composta por Villa-Lobos, que nem letra tinha. Talvez pelo nome... Sei lá.
Não foi fácil esse tempo, principalmente pelo propósito inabalável de “viver no limite” a que nos propúnhamos.
Mas quando ganhávamos um round na luta contra a censura, comemorávamos muito.
– Alô? Dona Rosa?  (Dona Rosa era a secretária do diretor do Departamento da Censura, no Rio de Janeiro, uma pessoa mais fácil de se encontrar e de se conversar).
– Dona Rosa, a censura fechou o teatro, o público está na porta, será que nós podemos substituir a peça por um recital, só com as musicas.
– Vou ver com o chefe o que posso fazer... (após uma espera angustiante, ela volta)
– Eu consegui que ele deixasse, mas vocês têm que mandar a relação das músicas aqui pro departamento.
– Mas Dona Rosa, desse jeito não vai ter como fazer o recital hoje, isso vai nos arruinar! Será que não dá pra fazer uma exceção e liberar pelo telefone, mesmo, por favor!
– Chiii... Deixa eu falar com ele... (após nova e angustiante espera, ela retorna).
– Eu consegui, mas vocês têm que me passar o roteiro. Se alguma das músicas estiver proibida, não poderá ser cantada, combinado? Em hipótese alguma, combinado?
– Combinadíssimo! Podemos então ler o roteiro para a senhora?
– Pode.
E lá íamos nós, de um lado, nomeando as músicas, e do outro lado, Dona Rosa, dizendo, após consultar seus arquivos: “Essa pode, essa não pode, essa pode, essa não pode...”
Num determinado momento, aquela velha necessidade de andar “no limite” nos atacou e o Aquiles, que estava negociando com a Dona Rosa, disse:
– A próxima música é “Pai”... de domínio público...
– Pai... Pai... Não estou encontrando... É de domínio público, é?
– É! Mas não sabemos os nomes dos autores. É uma música bem simplezinha...
– Tá bem! Qual é a próxima música...?
Acontece que “Pai”, foi uma maneira de encaixar a proibidíssima “Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque. Vai gostar do perigo assim lá longe!!!
Com lotação esgotada, realizamos o recital. E não deu outra, no domingo o teatro estava novamente fechado e, dessa vez, para liberar o show, só com o comparecimento ao Departamento de Censura, nós com cara de cachorro que caiu do caminhão da mudança...
Era assim, meninos.
Outra: Maurício Tapajós devia estar delirando quando nos mostrou uma música que queria que gravássemos! Depois de cantar “Pesadelo”, parceria dele com Paulo César Pinheiro, ficou esperando a nossa reação.
– É uma porrada, Maurício!
– E então, vocês gravam?
– Cara, cê tá maluco? Já mandou a letra pra censura?
– Não.
– E em que país você sonhou que ela vai ser liberada?
– Se eu trouxer a música com a liberação, vocês gravam?
Um sorriso de descrédito surgiu em nossos rostos; um sorriso de malícia surgiu no rosto do Maurício...
– Tá bem! Se você trouxer a música liberada nós gravamos. Palavra de MPB4.
Não sabíamos onde estávamos nos metendo. Não se passou muito tempo e encontramos Maurício Tapajós com aquele sorriso no rosto e a letra de “Pesadelo” com um lindo carimbo da censura: LIBERADO!
A explicação: era época de carnaval e os censores pagavam o preço por controlar tudo o que se fazia e se dizia e se cantava neste imenso Brasil. Assim, as músicas carnavalescas se empilhavam, às centenas, nas mesas dos censores. Estes, já de saco cheio, sem a menor paciência, mal liam o que estava escrito nas letras, automaticamente, iam carimbando as liberações. Só que, dentre aquelas músicas de carnaval, estava uma curiosamente chamada... “Pesadelo”, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro.
Foi mais uma pequena vitória da perspicácia do artista contra a estupidez que envolve qualquer tipo de censura. 
E foi assim, meninos, que o MPB4 gravou “Pesadelo”, música que se transformou num dos hinos da resistência contra a censura e a opressão.


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