Patativa do Assaré era um homem voltado para sentir as palavras. Um sertanejo calejado na luta para traduzir o sentimento do nordestino. Quase cego dos olhos, como o Assum Preto. Com os ouvidos moucos de tanto ouvir a ladainha dos pobres de espírito, restava-lhe a poesia. Restavam-lhe as palavras que, juntas, valiam a voz do homem do sertão do Ceará, sua terra natal. Homem brasileiro que se orgulhava de sua gente e fazia versos que eram como uma câmera fotográfica a registrar com crueza a miséria de sua gente. Criador de frases, seu mundo era o mundão dos grotões e das caatingas. Sua voz ecoava pelos quatro cantos do Nordeste tão miserável quanto rico. A mesquinharia de coronéis, senhores feudais e cafetões da seca secular, excluiu um pedaço brasileiro dentro do Brasil. Como uma perna amputada do tronco, o Nordeste teima em se apoiar na voz de seus cantadores. Tenta resistir na ponta do lápis de seus poetas. Tenta não deixar que se apague a chama de vida nascida da terra árida que faz sua música brotar do chão esturricado pelo sol de arder a pele e a alma.
Patativa falava a língua nordestina com o sotaque de seu povo. Sua gente o entendia e idolatrava. Suas palavras formavam um caminho que ligava Assaré ao resto do país. Essa estrada formada por versos batidos em meio à terra seca levava Patativa mundo afora. O poeta fez de suas andanças seu viver e relatava-as àqueles que são ávidos por ouvir histórias do homem que traça o seu destino com palavras.
Antônio Gonçalves da Silva disse: “A poesia sempre foi e ainda está sendo a maior distração da minha vida.” Um homem que se divertia chamando seus irmãos à luta. Um poeta que vivia para fazer com que seus versos fossem usados pelos seus conterrâneos para buscarem uma vida mais digna.
Patativa não ouvia e pouco enxergava. Vivia sentado em sua cadeira de balanço, ritmando seus dias ao sabor do nascer e do pôr do sol. Patativa era um de seus personagens, ele e todos os que vivem pelo sertão adentro. Em sua antologia Cante Lá Que Eu Canto Cá, organizada pelo pesquisador Plácido Cidade Nuvens e lançada pela Editora Vozes em 1978, Patativa do Assaré ensina: “Morre aquela criatura, / depois, a pobre coitada, / no rumo da sepultura, / vai numa rede imbruiada. / Um adjunto de gente, / uns atrás, ôtras na frente, / num apressado rojão, / quando um sorta, o ôtro pega: / é assim que se carrega/ morte pobre, no sertão.” Em sua escrita que reproduz o falar do homem nordestino o poeta revelava o que seus olhos já quase não viam, e cantava as cantigas que seus ouvidos já pouco escutavam.
Patativa não costumava ser muito gentil com o monte de políticos que, na época de eleição, iam procurá-lo em sua casa, em Assaré – distante quinhentos quilômetros de Fortaleza –, para pedir apoio. Sentado na cadeira de balanço, pitando seu cigarro, aquele homem de um metro e meio de altura tinha versos afiados na ponta da língua, prontos para afrontar os homens que faziam e fazem da seca indústria, da fome comércio e do latifúndio quintal de sua ganância inescrupulosa. O poeta escarrava pro lado e mandava bala na lata do projeto de político: “Quero um chefe brasileiro/ Fiel, firme e justiceiro/ Capaz de nos proteger, / Que do campo até a rua/ O povo todo possua/ O direito de viver/ Quero paz e liberdade, / Sossego e fraternidade/ Na nossa pátria natal/ Desde a cidade ao deserto/ Quero o operário liberto/ Da exploração patronal (...)”
Patativa do Assaré, pajé da nossa cultura popular como Braguinha, Dino e Jamelão. Exemplos de criatividade, dignidade e cidadania.
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Jamelão se foi algum tempo depois. Saudades...
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