Tenho saudades do tempo em que os shows eram realizados em temporadas longas, uma semana em cada cidade. Dava tempo de conhecer melhor os lugares e de fazer amizades – algumas eu curto até hoje, mesmo não tendo mais as oportunidades que tínhamos para nos encontrar.
Uma das minhas manias, naquela época, era conhecer o Mercado Municipal, que eu considero o coração de cada cidade. Principalmente na gastronomia, que é onde você encontra a personalidade do povo, seus gostos e seu linguajar. Que saudades do Mercado Central de Belo Horizonte, onde, nas temporadas de uma semana, ou mais, podíamos ir, aos domingos, comer uma carne de porco frita regada a uma boa cachaça mineira e temperada com muita conversa e muitos “causos”. Ô trem bão, sô!!!
Hoje mal conhecemos os aeroportos, os hotéis e os locais onde fazemos shows. Um dia só e, no dia seguinte, ou voltamos pra casa ou vamos pra outra cidade, na mesma correria. À noite, um breve encontro com os amigos dos tempos das temporadas. Aí, de duas uma: ou você se frustra porque não deu tempo de colocar os assuntos em dia, ou os assuntos ficam em dia, mas a cabeça, no dia seguinte, está maior do que aquelas que os foliões usam no famoso Carnaval de Nice. – é claro que não dá pra colocar “assuntos em dia” sem molhar a palavra, né?
Quando dessas temporadas curtas, minha cabeça dá um nó. Começo a fazer confusão entre os lugares, entre os teatros e entre os hotéis. E entre os quartos, em cada hotel em que me hospedo.
Na quarta-feira fiquei no apartamento 503 do Hotel Promenade, em BH; na quinta estive no apartamento 907 do Mercure Hotel, em São Paulo; na sexta fiquei no Hotel Mabu, no apartamento 307, em Curitiba... Um dia isso tinha que dar “causo”. Principalmente há algum tempo, aquele em que as chaves dos apartamentos eram chaves mesmo, daquelas de enfiar na porta e girar para abri-la.
E foi no meio de uma temporada dessas que, depois de nos registrarmos no hotel e de almoçarmos, cheguei à recepção, um pouco cheia, é verdade, e pedi a chave do 507. Subi, entrei no apartamento e já ia me preparar para tirar a roupa e dormir uma “sesta”, quando comecei a notar algumas coisas estranhas no local, principalmente uma calcinha pendurada no box do banheiro...
De repente, tudo clareou na minha cabeça. Eu havia ficado no apartamento 507, sim, mas na véspera... O apartamento de hoje era outro! Saí o mais rápido que pude, desci no elevador torcendo pra não encontrar a maior confusão: a mulher e o marido (sei lá!) brigando com o recepcionista, a polícia me esperando – é aquele ali o invasor, prendam-no!!! Isso sem falar na vergonha pela manchete estampada nos jornais do dia seguinte: “Cantor do MPB4 é tarado!” Acorda Magro!
Cheguei ao térreo e tudo estava na maior paz... Aproveitando de um descuido do recepcionista, coloquei rapidamente a chave naquele buraco que existia antigamente nos hotéis, reservado para as chaves dos hóspedes que saíam. Disfarçadamente, dei uma volta pela recepção, voltei ao balcão e disse ao recepcionista atônito: – Olá, meusobrenome é Waghabi, em que apartamento eu estou?
Haja cabeça!
Mais recentemente – as portas já tinham chaves magnéticas –, ia eu caminhando pelo corredor do meu andar, pelo menos isto eu me lembrava, quando me esqueci (acontece muito comigo esse negócio de esquecer) em que apartamento eu estava hospedado. Foi quando, já tomado pelos eflúvios alcoólicos, tive a brilhante idéia de ir experimentando a chave magnética em cada um dos apartamentos, até que, tcham, tcham, tcham, um abriu. E... Oh! Surpresa! Era o meu mesmo!!!!
Deus protege os bêbados!
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