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"O caso do trem que desafinava",por Magro Waghabi

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Pra entender este caso, eu preciso primeiro explicar o que é “ouvido absoluto”. Para tanto, usarei a definição que consta num artigo de Suzana Herculano-Houzel, do Departamento de Anatomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro: "Ouvido absoluto é o nome da capacidade que tem essa única pessoa em dez mil de identificar notas musicais sem precisar ouvir primeiro outra nota conhecida como comparação.”
Ou seja, o cara que tem ouvido absoluto, apenas 1 em 10000, não precisa de um instrumento para cantar uma nota, qualquer que seja. O meu ouvido é absolutamente relativo...
Mas pra quê esta definição? Ora, ela tem a ver com um tipo de vocalização fascinante: o canto a cappella. Uma maneira de cantar usando somente as vozes, sem apoio de nenhum instrumento musical. Não é fácil, principalmente pelo fato de que, não havendo nenhum instrumento para definir as notas musicais, a tendência, em geral, é cair a afinação.
Se todos os cantores que formassem um grupo vocal a cappella tivessem o “ouvido absoluto”, definido aí em cima, nunca haveria problemas com a afinação. Mas para se conseguir, vá lá, quatro cantores com tamanho dom, seria preciso garimpar bem uns quarenta mil cantores. Pelo menos!
Então, o jeito que o pessoal encontrou para cantar desta forma, foi usar certos recursos no arranjo vocal que evitassem a queda da tonalidade, e treinar muito para que isto não acontecesse.
“Tudo bem, mas e daí? O que é que isto tem a ver com um trem que desafinava, coisa, aliás, que eu acho muito esquisita?” Você me pergunta.
Calma, meu amigo, antes, eu ainda quero dizer que o MPB4 já se meteu algumas vezes nessa encrenca de cantar a cappella. E quando acabávamos de cantar, eu disfarçadamente conferia a afinação no meu piano para ver se havíamos terminado no mesmo tom em que começáramos. Sem modéstia, a maior parte das vezes nós chegamos lá, ou muito perto.
Mas voltando ao “trem que desafinava”: foi no mesmo Teatro Paiol, onde aconteceu aquele “branco inconsciente”, narrado há duas semanas, que o MPB4 viveu esta experiência única. Talvez tenha sido na mesma temporada daquele outro caso...
Estávamos empolgados com um arranjo a cappella que o Miltinho tinha feito para “Canto Triste”, a belíssima música de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. E, é claro, ela estava no roteiro do show. Mas alguma coisa estranha passou a acontecer, e só nessa temporada.
Nela, às vezes, cantávamos o arranjo e, no final, quando eu ia conferir a afinação, estávamos muito bem! Outras vezes, ao conferi-la, estávamos quase um tom abaixo! Pra quem não tem muita familiaridade com a terminologia musical, faço uma comparação: imagine, num torneio de “tiro ao alvo”, um bom atirador errar não somente a “mosca”, mas o alvo inteiro! Deu pra entender a nossa aflição?
O que poderia ser? Um fantasma desafinado? Alguma coisa que nós comemos antes? O que seria? Foi com alívio e raiva que, numa noite, descobrimos o que estava acontecendo:  
– Mas... e o trem que passa por aqui todas as noites?
– Será que ele é que nos leva a desafinar?
– Claro! Foi o trem!
– O trem que desafinava?
– Mas é claro que sim!
Explico: Em frente ao Teatro Paiol passava uma linha férrea. E como naquele tempo ainda existiam trens, obviamente, um passava sobre ela, a linha, justamente à noite, enquanto fazíamos o show. E apitava!
Não é que o trem desafinasse, é claro! Mas com certeza ele nos levava, com seu apito, para fora do tom em que cantávamos a música. Mas se era assim, por quê isto não acontecia toda noite? Elementar, meu caro Watson!
Como o trem passava sempre no mesmo horário, era só uma questão de começar o show um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, e pronto!
Assim, se começássemos no horário previamente estabelecido, o tal trem passava quando já tínhamos cantado o “Canto Triste”. E a afinação estava salva. Mas quando atrasávamos um pouco para começar o show, o trem (ele não atrasava nunca!), literalmente, atropelava o nosso “Canto Triste”, levando a gente para o tom do seu apito!!! E a desafinação se dava.
Pode?
Que tristeza!!!



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