Era por volta de 1980. O MPB4 fazia uma de suas poucas viagens artísticas para o exterior. Íamos nos apresentar com Chico Buarque em Lisboa, Portugal. Se a memória não me falha, participaríamos de um grande show comemorativo do aniversário do jornal Avante, órgão oficial do Partido Comunista Português. A festa deve ter reunido umas 500 mil pessoas, num enorme planalto, após a ponte sobre o Rio Tejo. Eu brincava: Nem Frank Sinatra!
Não foram muitas as vezes em que trabalhamos no exterior: Portugal, três vezes; Itália, uma vez; Cuba, duas vezes; México, uma; Argentina, duas; Uruguai, duas e EUA uma vez. Para 45 anos de carreira, convenhamos...
Como daquela vez as finanças permitiam, estávamos levando nossas esposas. O vôo, num “moderno” Boeing 707 da Varig, não estava cheio, o que permitiu que minha mulher fizesse de cama todas as cinco poltronas centrais que, obviamente, ficavam juntas. E a mim coube o papel de travesseiro, viajando sentado, é claro, numa das poltronas que ficava no extremo da fileira, o que é mais claro ainda, ora veja você...
Bons tempos aqueles em que o serviço de bordo incluía aperitivos em copos de vidro, que o jantar era servido em pratos de verdade, com guardanapo de linho e talheres personalizados com a marca da empresa. Tudo isso devidamente acompanhado de vinho servido em taças, como deve ser. Tinha até gente que, como hobby, “colecionava” aqueles famosos talheres da Varig.
(E pensar que hoje tem companhia aérea querendo cobrar por um lanche servido em recipientes de papelão e acompanhado de talheres de plástico...)
E lá fomos nós a caminho de Lisboa. Depois do jantar, um cafezinho e... hora de dormir que a viagem é longa.
Só se ouvia o surdo ruído das turbinas do 707 atravessando o oceano rumo à capital portuguesa. Dentro do enorme aparelho, todos dormiam, cada um com seus sonhos. Mas algo surpreendente estava por acontecer...
Um pequeno balanço do avião me trouxe, ainda que eu estivesse entorpecido pelo sono, uma ligeira sensação de que deveria ir ao banheiro: hora de fazer xixi.
Meio sonâmbulo, levantei-me, deixando minha mulher deitada sobre os bancos, e me dirigi ao banheiro, que ficava na cauda da aeronave. Mal sabia eu que, ao voltar, uma surpresa, a princípio incompreensível para um quase sonâmbulo, me esperava.
Lição que se aprende para sempre: nunca se deve levantar, num vôo intercontinental, para ir ao banheiro sem se estar completamente acordado... Mas eu assim fiz. E paguei um alto preço por isso.
Não! Não aconteceu nada no banheiro. Tudo correu normalmente, apesar da sonolência. Fiz meu xixi e, meio acordado, meio dormindo, voltei à minha poltrona, retomando a minha “sina” de ser travesseiro.
Foi quando tudo aconteceu numa rapidez que os sentidos não conseguiram acompanhar... “Epa!”, disse eu lá com os meus botões, “minha mulher se levantou e está brigando comigo! Está furiosa, me passando uma descompostura... Em alemão!!!???”
Tive então um rasgo de lucidez: “Mas minha mulher não sabe falar alemão... E nem é loura!!! Caramba, não é a minha mulher!!!”
Acordei. Esgueirei-me rapidamente dali, e, já bem desperto, fui procurar a poltrona que eu realmente ocupava.
Nunca imaginei que me sentiria tão bem voltando à condição de travesseiro.
É nisso que dá ir ao banheiro dormindo.
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