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"O 'd' perdido", por Magro Waghabi

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Na década de 1960, gravar um disco era um trabalho que demandava muito ensaio, paciência e “astúcia”. Sim, astúcia para resolver os problemas que hoje a informática transformou em “besteiras”.
Para se ter uma ideia, a fita usada para gravar uma orquestra inteira mais o solista era da largura de um dedo, digamos, anular... E tudo saía gravado em dois canais, o “som estereofônico”!
Vamos do começo para entender: no princípio era tudo junto. Orquestra e cantor “atacavam” juntos e o cantor tinha que ter voz potente para aparecer no meio da massa sonora. Era tudo em um canal só. Mono.
Depois inventaram a gravação estéreo, ou seja, a fita era mais larga e duas pistas eram gravadas nela, permitindo a audição em duas caixas de som, um canal em cada caixa. E aí surgiu o alívio para o cantor: a gravação dupla! Ou seja, a orquestra gravava numa fita e o som resultante desta gravação era regravado em outra fita, que registrava, ao mesmo tempo, a voz do cantor. Que maravilha!
Hoje a informática permite que você, se quiser, grave cada instrumento numa trilha separada, em n canais, para misturar tudo depois, cada instrumento no volume que você escolher. E ainda com a possibilidade de usar vários canais de saída, ou seja, de se poder até ouvir um instrumento tocando numa caixa de som atrás de você... Pode? Pode!
E a mixagem, em outras palavras, a proporção de volume com que cada instrumento aparece na audição, de forma que um não encubra o outro e todos não afoguem o cantor com sua massa sonora? Naquele tempo, esse equilíbrio tinha que estar perfeito já ao ser gravado. Qualquer erro, qualquer frase mal executada, só havia duas opções: ia assim mesmo para o “Long Playing”, vulgo LP, ou se gravava tudo de novo.
O problema é que, às vezes, a gravação estava ótima e por um pequeno erro se perdia o todo. Foi quando surgiu a “mágica da gilete”. 
– “Puxa, a gravação ficou ótima, exceto por causa daquele pedaço. Será que vamos ter que jogar fora e fazer outra gravação?”
– “Vamos fazer o seguinte: gravamos de novo, e se aquele pedaço ficar direito, nós substituímos o da primeira gravação”.
– “Como?”
– “Cortamos o pedaço bom da segunda gravação, cortamos exatamente o mesmo pedaço da primeira gravação ruim e fazemos a troca”.
A ideia era genial, mas precisava que por trás desta cuidadosa operação estivesse um técnico de ouvido apuradíssimo e senso musical idem, para cortar exatamente no mesmo lugar nas duas gravações, de modo que depois não se percebesse a emenda. 
Alguns poucos eram gênios nesta “arte”. Dentre eles, Célio Martins, o Celinho – o preferido d’Os Cariocas – e Ary Carvalhaes que durante muito tempo trabalhou conosco, fazendo suas mágicas no estúdio, entre elas a de “recuperar uma letra “d” perdida”!
Foi assim: gravávamos o nosso terceiro disco (os quatro primeiros discos de carreira do MPB4 não tinham nome, eram o “primeiro”, o “segundo”, o “terceiro” e o “quarto”...) e, no repertório, estava “Até Pensei”, bela composição de Chico Buarque.
Fizemos o primeiro take que ficou muito bonito, com exceção de um momento da letra: “Do lado de lá tanta ventura (...)” O “do”, no início da frase, não estava bom, estava um pouco desafinado. E agora? Gravamos tudo de novo?
– “Mas está tão bom...”
– “Vamos gravar em outro take e se ficar afinado substituímos o pedaço que está ruim – disse Ary Carvalhaes, o nosso mágico.
Dito e feito: gravamos e ficou ótimo! Ary cortou o pedaço ruim, substituiu pelo bom e... “Bota aí pra gente ouvir!”
Surpresa!!! Na emenda se ouviu: “o lado de lá (...)”
– “Ué, cadê o ‘d’?” O Ary fizera um corte tão justo que “comeu” o “d” do “do”!!!!
– “E agora?”
Foi aí que entrou o ouvido e também a perspicácia de um técnico competente. Ouve daqui, corta dali... até que ele achou um pedaço de fita, de aproximadamente três centímetros de comprimento, que foi devidamente colado no espaço onde deveria estar o “d” comido. 
Suspense no estúdio... “Bota aí pra gente ouvir!” Ufa! Lá estava ele! Ouvimos, aliviados, a frase de Chico Buarque com o “d” do “do” devidamente recuperado!!!!
Palmas para Ary Carvalhaes, o nosso mágico do som!


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