Ultimamente não ando com a memória muito afiada, mal consigo lembrar das últimas doze horas. Mas, engraçado, consigo lembrar com clareza límpida fatos remotos de vinte, trinta anos atrás.
Lembro-me bem. Quando ele nasceu na noite de 24 de Outubro de 1968, Chico, camisa do Fluminense na mão, pulou o portão trancado da maternidade. Passava das onze da noite. O pai, marinheiro de primeira viagem, acabara o estoque de cerveja da lanchonete do primeiro andar daquela clínica no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, e dormia feliz depois de ver seu menino ser amamentado pela primeira vez. Fazia planos para ele, rubro-negro doente seria, sem dúvida. Seria um músico? Talvez, e por que não?
Embriagado de felicidade, despertou com as vozes na porta do quarto: “Mas meu senhor, o horário de visitas já acabou, o senhor não pode entrar aqui desse jeito. A mãe da criança fez cesariana e está sob efeito da anestesia...” Mas quem disse que alguém poderia conter o ímpeto quase juvenil daquele “senhor” de 25 anos? Chico entrou quarto adentro, colocou a camisa tricolor nas mãos rubro-negras do pai atônito e foi-se como entrou, sorrindo, quase correndo.
No dia seguinte a honra flamenguista foi resgatada com a entrega solene, desta vez diretamente nas mãos do recém-nascido, do manto sagrado do Mengão pelo saudoso Ciro Monteiro. Meu menino, juro, sorriu.
E a vida seguiu. Seguir é com ela mesmo, a vida.
Início de 1996. Lembro-me bem. Atendi ao telefone e do outro lado da linha meu menino, já aquela altura com 28 anos, músico profissional (guitarrista, violonista e bandolinista) e rubro-negro doente estava eufórico, mas preocupado. Ele disse: “Fui convidado para participar de um projeto superimportante aqui no Rio. Um show no teatro Dulcina, na Cinelândia, onde cada semana um jovem e iniciante talento se apresenta ao lado de um artista consagrado”. As palavras saiam atropeladas. “Maravilha, parabéns... E quando será o show?”, indaguei. “Será daqui a três semanas, mas... Quem é que eu posso convidar, pai? É... Quem será o artista consagrado que eu posso convidar?” “Liga pro Chico!”, falei. Silêncio ensurdecedor. Do Leblon, no Rio de Janeiro até a Vila Mariana, em São Paulo, creio que todos puderam ouvir o som daquele silêncio retumbante. Finalmente, Pedro fala: “Mas você acha que ele topa?” “Liga e tenta”, sugeri.
E não é que ele topou, o Chico!
11 de Março de 1996. A porta do Dulcina fervilha de gente, muita gente. Na fachada do teatro está lá, para quem quiser ver: “Chico Buarque apresenta Pedro Reis, Thata e Mombaça”, esses dois últimos, companheiros do meu filho naquela noite mágica de responsabilidade e reverência ao ídolo que musicalmente os abençoou. Aqueles jovens sentiam isso. Eles tocaram isso aquela noite.
Saí do teatro direto para a última ponte aérea para São Paulo. Embriagado de felicidade telefono: “Chico, mais uma vez você acertou. Pedro merece tudo o que você lhe proporcionou essa noite. Muito mais do que um grande talento musical, você premiou um grande homem.” Eu não vi, mas Chico Buarque sorriu, olhou para o chão e desligou quase correndo. Isso é generosidade!
PS. Este texto foi publicado, originalmente, em meu livro "O Gogó de Aquiles", lançado pela A Girafa Editora, em 2004.
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Achei os dois últimos causos bacanas. O que mais me impressionou foi a do Aquiles, que contou o nascimento do seu filho. Que linda a história, pois é tão bacana ver o pai feliz com nascimento do seu filho!!! E como o Aquiles foi pai tão jovem.