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"Nos anos de chumbo, ler nas entrelinhas era uma obrigação. Mas não precisava exagerar..." Por Magro Waghabi

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Meados da década de 1970. A censura do regime militar estava cega e furiosa, atacava tudo e todos, deixando poucas brechas para a denúncia dos atos cometidos nos porões da ditadura.
E tinha dois braços, a censura: um político e outro econômico.
Os palcos eram uma das poucas opções para as denúncias mas tínhamos que agir com cuidado, explorando a burrice dos censores.
Um deslize e a peça ou o show eram proibidos e aí aparecia a pressão econômica, afinal, para se colocar um espetáculo em cena, era necessário dinheiro, levantado em bancos que não queriam saber o que aconteceu.
Explorar a burrice dos censores era o recurso que usávamos para liberar os shows.
Por exemplo:
Todo espetáculo tinha que ter uma apresentação prévia para a censura. E, muitas vezes, terminada a sessão, os responsáveis pela liberação saíam com muita pena da gente.
-Coitados, este show não dura uma semana, horrível do jeito que está, cheio de erros, incompreensível...
É que, além de errarmos as músicas e os textos de propósito, nossos técnicos de som e luz cooperavam para que tudo fosse escuro e ensurdecedor  tornando o espetáculo absolutamente impossível de se assistir.
E com isso conseguíamos a liberação dos “apiedados” censores!
Chegava a ser divertido mas durava pouco...
Algumas semanas após a estréia eram suficientes para nossos carrascos, ao verem as sessões lotadas, perceberem que tinham sido iludidos e fecharem o teatro usando, às vêzes, a força policial.
E tome de negociar texto, título e músicas para não tomar um prejuízo insustentável. Mas era assim: nós não íamos nos censurar portanto quem tinha que dar o limite eram eles. Era um jogo em que, apesar dos golpes recebidos, não paramos nunca de jogar.
Um recurso muito usado por todos os que lutaram contra a mordaça da censura era denunciar nas “entrelinhas”, uma forma de expressão que não era muito percebida pelos nossos inimigos, acostumados a uma linguagem mais..., vamos dizer, “direta”.
E o público que nos apoiava e enchia os teatros onde nos apresentávamos sabia ler “nas entrelinhas”.
Às vezes até demais!    
Quando Chico Buarque resolveu dar uma parada nas suas apresentações públicas, ele nos sugeriu um caminho que tínhamos deixado de lado, ao nos profissionalizarmos.
Um lado teatral do MPB4, que usávamos quando éramos ainda o Quarteto do CPC, nome que teve que ser abandonado após o golpe militar de 1964.
E, junto com Antônio Pedro, ator e diretor teatral, e Chico, escrevemos, a seis mãos, a nossa primeira peça musical, o nosso primeiro “besteirol”, cheio de denúncias nas linhas e nas entrelinhas.
“MPB4 na República do Peru”, mais tarde “MPB4 na Rua República do Peru” foi o primeiro de muitos musicais que foram censurados total ou parcialmente, que tiveram de trocar de título, que tiveram músicas censuradas e substituídas e censuradas novamente, que tiveram palavras e frases negociadas e censuradas e renegociadas,  numa rotina que passou a fazer parte da nossa vida até que uma luz aparecesse, no fim de um insuportável e interminável túnel, lá pelos idos de 1980.
Desses tempos alguns episódios ficaram na memória. Um deles, que eu conto agora, mostra a sede que o público, que nos assistia, tinha de ler quaisquer denúncias nas famosas “entrelinhas”, sede que, às vezes, chegava a um certo exagero.
Nosso segundo musical com texto se chamava “MPB4 na República de Ugunga” e, como todos, teve problemas com a censura, a começar pelo título que teve que ser mudado para “MPB4 no Safari”.
Contava a história de um conjunto vocal – nós - que recebia uma oferta de trabalho, irrecusável, de uma república distante. E lá fomos nós para ficarmos confinados em um quarto de hotel enquanto ensaiávamos para as apresentações que nunca aconteciam...
Pior: estávamos, misteriosamente, sendo vigiados pelas autoridades locais que mandavam avisos ameaçadores a cada vez que comentávamos negativamente sobre o país. E só nós não víamos, obviamente, um enorme microfone, grotescamente pendurado numa corda, que fazia as vêzes de lustre do quarto de hotel.
O show vai transcorrendo entre textos e músicas até que, finalmente, descobrimos o microfone, operado pelo espião entre nós, que era o técnico de som, nos livramos dele, o microfone, e assim o show terminava.
Nos camarins o encontro com nossos espectadores, os abraços e os comentários...comentários de quem viu muito mais do que nós pensávamos mostrar.
-Maravilha o show!
Adorei as músicas e fiquei impressionado com a denúncia que vocês fizeram das torturas!
Muito bem bolado!
-.......?????
-A cena do microfone, maravilhosa!
-........??????????
-Quando vocês arrancaram o microfone e deixaram, para todo o mundo ver, aquela corda projetando no cenário a forma de uma forca, denunciando as torturas....simplesmente maravilhoso!
Ainda bem que os censores não tinham esta imaginação...



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