Minha infância e começo de mocidade foram marcados pelo gosto musical de meus pais. As óperas cantadas por Beniamino Gigli e Enrico Caruso ecoavam forte pela casa, vindas do moderníssimo hi-fi recém-adquirido por meu pai, para orgulho da família. Nora Ney e Jorge Goulart, companheiros na vida e na arte, eram vozes familiares à casa. Não só por amor às suas vozes e repertório, mas também porque meu pai, integrante do Partidão, identificava-se com as posições do casal, simpáticas a ex-União Soviética. Ideologias à parte, só me beneficiou o gosto eclético de pai e mãe na área musical. Hoje, ao indicar Nora Ney como matriarca da música brasileira, trago comigo meu passado. A história da minha vida está enriquecida pela presença de mulheres como Nora, que fizeram a música invadir minha alma, tornando-a menos egoísta e, sem dúvida, mais suave. Sou grato a essas mulheres que são provedoras de um amor que o universo masculino desconhece e, pior, às vezes despreza. Vocês, matriarcas da música brasileira, com suas vozes tão diferentes umas das outras, mostraram-me um caminho que há de conduzir meu destino trôpego e inseguro. Adquiri confiança no mundo da mulher. Tenho crença no mundo feminino mais sensível e transparente.
Aos 26 anos, Nora Ney freqüentava, junto com Dick Farney, Lúcio Alves e Johnny Alf, o Sinatra-Farney Fan Club. Batizada Iracema de Sousa Ferreira, Nora era contadora de profissão. Virou Nora May, cantora com repertório feito de músicas estrangeiras, ao ser levada ao programa Fantasia Musical, da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. O pseudônimo Nora Ney surgiu quando o destino fez com que substituísse Aracy de Almeida que saía de férias do quadro Viva o Samba, do programa de Haroldo Barbosa. Nesse programa, Nora usou sua afinação, seu ritmo e sua emoção acentuada por uma voz sofrida para mostrar ao público e a ela mesma que existia um gênero musical que era como se tivesse sido criado para ela – o samba-canção é triste como a voz grave de Nora Ney. Daí a se tornar a melhor de todas foi uma questão de pouco tempo. Ao lançar o novato Antônio Maria, gravando uma de suas primeiras composições “Menino Grande”, e em seguida lançando, do mesmo Antônio Maria, só que em parceria com Fernando Lobo, “Ninguém Me Ama”, conquistou o sucesso que lhe deu o disco de ouro por cinco anos seguidos como melhor cantora. O samba-canção havia descoberto a voz triste de Nora Nei, estrela que se firmou ao lançar “Só Louco”, música definitiva da obra genial de Dorival Caymmi.
Que isquemia foi aquela que atingiu você e limitou seus movimentos, Nora? Que dor foi aquela que você sentiu e que se juntou a outra que veio do descaso para com sua história? São tantos os “por quês” que nunca soube responder. Aprendi a responder à vida por sua voz. Conheço alguns mistérios do mundo por sua graça e obra, Nora Ney, matriarca do meu saber.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.