Elas são as donas de tudo. Por suas almas generosas e provedoras passam os destinos de uma nação que teima em ser egoísta com sua gente. De suas gargantas e mãos saem a tradução do desejo de sermos felizes na terra em que nascemos e da qual não temos a menor intenção de nos afastar. Vocês, minhas matriarcas da música brasileira, inspiram nossos sonhos mais primitivos. Mulheres que trabalham a emoção, fazendo dela a força que nos impulsiona para além de fronteiras desconhecidas. Mulheres que cantam e tocam a alegria de sentir que só elas, e apenas elas, têm a coragem e o desprendimento de transformar dor e paixão em músicas de um som límpido e cristalino que nos fazem crer que nem tudo se perdeu ao longo de uma estrada infinita.
Conheci pessoalmente a Marlene em 1968, no Café Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. Eu, evidentemente, já conhecia a voz e o repertório dessa grande cantora e atriz de cinema e teatro. Ouvindo as rádios Tupi, Nacional, Globo e Mayrink Veiga travei conhecimento com os sucessos que, a partir do início da década de 1950, começaram a surgir em profusão e que fizeram da paulista Vitória Bonaiutti de Martino, a nossa Marlene, um nome nacional. Viva Marlene! Salve suas interpretações eloquentes e teatrais. Que expressão corporal tem a Marlene, hein? Meu Deus! Quando a vi no palco do teatro Casa Grande, estrelando o musical Carnavália, de Paulo Afonso Grisolli e Sidney Miller, com texto da grande Eneida, fiquei maravilhado. Uma verdadeira artista. Ao lado de Blecaute e Nuno Roland, Marlene desfilava sua musicalidade teatral por sambas e marchas antológicas de carnavais memoráveis. O palco era como uma nuvem que abrigava sonhos bons. Do lado de fora, nas ruas, o céu era feito de chumbo. Naquele palco, dançava-se. Nas ruas, prendiam-se. Da platéia gritava-se a plenos pulmões. Nas esquinas, o silêncio de revolta contra a ditadura militar era ensurdecedor. Aquele tempo ficou marcado na memória nacional. Alguns shows e peças teatrais ajudaram a torná-lo mais ameno. Carnavália, sem dúvida, foi um deles.
Mas é preciso muito mais do que isso para ver nosso povo educado, com casa para morar, chão para plantar, com segurança, trabalhando com saúde e votando como cidadãos. E, para isso, nada melhor do que a voz e a teatralidade de Marlene. Nada como uma moda de viola tocada pela Helena Meirelles. Nada como ouvir a voz grave e emocionada de Carmen Costa. Nada como ouvir um samba-canção na voz triste da Nora Ney e nada melhor que ouvir Carmélia Alves cantando um baião para chamar a atenção do mundo para o que sentem seus cidadãos nas ruas das cidades dessa nação de quinhentos anos de insensibilidade e surdez, para a palavra de gente humilde que tem um jeito comovente de expressar seus sonhos e anseios.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.
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