Uma parte de mim é, certamente, nômade. De Itaocara, cidade do norte fluminense onde nasci, até São Paulo, onde resido atualmente, já passei por algumas cidades e em cada uma delas morei em pelo menos dois endereços.
Uma das boas experiências por que passei, incitado por Mônica, minha mulher, foi a de morar numa simpática cidade do interior do estado do Rio de Janeiro.
Conservatória, a capital da seresta, tem três ruas e uma população urbana de, aproximadamente, cinco mil habitantes, população esta que se multiplica nos fins de semana. Na sexta-feira e no sábado, às 23 horas, começa a serenata, comandada pelos seresteiros locais, que percorre as ruas entoando as clássicas modinhas e canções, seguidos por uma multidão de turistas brasileiros e estrangeiros que se emocionam com o belo espetáculo. O fato é que existe na cidade uma forte energia em forma de música que invade o coração de quem a visita.
Pois foi lá que nós montamos um café, o “Chez Maricotinha Caffe”, com a proposta de servir o melhor chocolate do Brasil!
A idéia era simples: abríamos o café na sexta à tarde e, após a saída dos seresteiros do Museu da Seresta, que ficava ao lado do café, fechávamos o estabelecimento e íamos pra casa dormir. No sábado a mesma coisa e chega!
Vidinha pacata, um salto que nem sempre as pessoas dão em busca de uma qualidade de vida quase inexplicável para alguns moradores de uma cidade nervosa e “imparável” como São Paulo, ou mesmo o Rio de Janeiro.
E assim vivemos felizes por uns poucos meses, até que um dia uma amiga minha, que tinha uma casa de música na cidade, resolveu trocar de atividades e me pediu para guardar seu piano... Como só guardar? Foi impossível não tocar! Foi quando a nossa vida mudou... Adeus travesseiros à meia-noite.
Com o piano veio um equipamento de som e com os dois minha amiga Iracema (na verdade, uma irmã adotiva), excelente cantora e intérprete, que passou a deliciar os fregueses e a mim que a acompanhava. E o Chez, como ficou conhecido na intimidade, passou a ser ponto de encontro de uma música diferente das que se tocava e cantava nos outros bares e restaurantes da cidade. Além, é claro, de servir o famoso chocolate quente!
Tocávamos e cantávamos todo tipo de música naquele cantinho de Conservatória. Só havia uma exigência: tinha que ser de qualidade. E tudo dependia da inspiração de um cliente ou do pianeiro – eu, no caso.
Temas de filmes, serestas, tangos, boleros, marchinhas de carnaval, quem puxava o primeiro trazia consigo o tema da noite. E as noites ficaram mais compridas, terminando, a bem dizer, na alta madrugada. Íamos pra casa cansados, mas felizes, porque não existe alimento melhor para o espírito do que uma boa música.
O Chez passou a ser um ponto de atração da cidade e, não raro, os artistas que apareciam por lá davam uma “canja” no nosso cantinho (canja, pra quem não sabe, é uma apresentação que o artista faz por puro prazer).
Helena de Lima, Candeias, Zé Menezes, Déo Rian e Carlinhos 6 cordas, Zezé Macedo e, me desculpem os omitidos, passaram por lá.
Os clientes viviam pedindo uma foto para recordação (com eles ou comigo)... Aí começa o causo de hoje: Passou-se o tempo, a saudade apertou (a família da Mônica mora, na sua totalidade, em São Paulo) e, num belo dia de muita tristeza, fechamos o Chez e voltamos para a desvairada metrópole.
Minha vida profissional não tinha mudado. Em Conservatória estava a duas horas do Rio de Janeiro e, portanto, do Aeroporto Santos Dumont, meu ponto de partida para as viagens a trabalho. Ou seja, somente o aeroporto mudou com a nossa volta para São Paulo.
É claro que na bagagem da volta nós levávamos muitas boas recordações daquela querida cidade. Nos corações o prazer de conviver com amigos antigos e novos, numa relação em que a música era a linguagem corriqueira. E nas malas algumas outras lembranças na forma de camisetas que, já em São Paulo, eu usava como forma de divulgar Conservatória.
Tempo que passa... Shows do MPB4, shows com Toquinho e foi num desses em que se deu o “busílis”. Terminado o show, troquei de roupa e coloquei minha camisa de Conservatória. Hora dos autógrafos e das fotos.
– Seu nome?
– Maria. Adoro vocês!
– Obrigado, Maria. Que bom que você gostou. (“Para Maria com um abraço do MPB4 – Magro”).
– Oi, tudo bem?
– Tudo, você poderia tirar uma foto com a gente?
– Pois não.
– Aí pessoal, xisss! Feito! Obrigado!
– Valeu.
E as pessoas iam passando e nós autografando, até que o último fã se foi. Mas o pessoal da foto ainda estava por lá... Persistentes, pensava eu quando eles me chamaram.
– Você tinha um café em Conservatória, né?!
– Verdade, gosto tanto daquela cidade que, vez por outra, ando com a camiseta que trouxe de lá.
– Nós estivemos no seu café... até tiramos uma foto com você...quer ver?
– Claro! Mas que coincidência!
Coincidência maior, que trouxe à mostra meu apego às coisas, foi me ver na foto com a mesmíssima camiseta que vestia naquele momento...
Vai gostar assim de Conservatória lá no mato!!!!
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