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"João Nogueira canta pra viver", por Aquiles Rique Reis

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Eu já conhecia João Nogueira da casa do Hermínio Bello de Carvalho, quando, num estúdio de gravação, ouvi “Espelho”, parceria do João com Paulo Cesar Pinheiro. Aqueles versos, “Num dia de tristeza me faltou o velho/ E falta lhe confesso que ainda hoje faz/ E eu me abracei na bola e pensei ser um dia/ Um craque da pelota ao me tornar rapaz/ Um dia chutei mal e machuquei o dedo/ E sem ter mais o velho prá tirar o medo/ Foi mais uma vontade que ficou prá trás” me emocionaram. Mal conseguia cantar o refrão. Um nó na garganta parecia querer me sufocar naquela gravação em 1977. Quantas vontades eu tinha deixado pra trás. Que falta meu velho fazia e confesso, até hoje faz. Como Paulinho Pinheiro e João Nogueira, eu chorava a solidão da perda.
João Batista Nogueira Júnior nasceu no Méier, subúrbio carioca, no dia 12 de novembro de 1941. Aos cinquenta e oito anos, comemora uma vida feita de cantar e de fazer samba. Idealizador do Clube do Samba, em 1979, deu teto e chão ao ritmo que traduz o espírito do cidadão que vive nesse país.
Seu pai, João Batista Nogueira, violonista e advogado lembrado no samba “Espelho”, devia estar orgulhoso do filho íntegro e decente que fez e entregou pro mundo. O velho devia sorrir ao ver um dos melhores intérpretes que temos, seu filho, superar com a garra de um centro avante goleador o acidente vascular cerebral que o atingiu em abril de 1998. Não se preocupe não, Seu Nogueira, o seu João é guerreiro. Pensou até em fazer guerrilha pelos botequins, armado de caixa de fósforos e apito. Seus cantos de guerra faziam estremecer o chão. Seus hinos à cidadania faziam a dignidade ganhar cores vivas. Sua parceria com a poesia de Paulo Cesar Pinheiro acendia a luz do “Poder da Criação”: “Não, ninguém faz samba só porque prefere/ Força nenhuma no mundo interfere/ Sobre o poder da criação (...)”
Foi a batalha pela sobrevivência, a luta pelo pão nosso de cada dia, o corre-corre atrás do leite das crianças, que fazia o cantor superar seus limites. Após gravar o CD Chico Buarque – Letra & Música pela gravadora Lumiar, em 1995, João Nogueira mostrou que era intérprete de alta linhagem. Entrou pro seleto grupo dos bambas do cantar samba: Roberto Ribeiro, Ciro Monteiro, Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Martinho da Vila. As divisões rítmicas para os sambas sincopados do Chico comprovaram o batismo de aceitação.
A voz, por vezes propositalmente arrastada, estava a serviço da malícia que o samba urbano precisa para ser de bamba. Três anos se passaram. 1998. João de Todos os Sambas. Dessa vez pela BMG, o novo CD de João Nogueira tentava o sucesso que o anterior não havia alcançado. Grandes músicas, como sempre, estavam lá. Parcerias com Paulo Cesar Pinheiro e Mário Lago, músicas de Jorge Simas e... Raça Negra! Isso mesmo, uma canção de dois integrantes do grupo Raça Negra. Mas, o que João Nogueira e Raça Negra têm em comum? Nada. A juntá-los apenas a busca maluca do sucesso. Apenas a besteira de juntar o que é para estar para sempre separado. Com certeza João não gravaria esse CD pela “multi” BMG sem esse tal “apelo de mercado”. Ali estaria a “chave do sucesso”, caminho rápido para o milhão de cópias vendidas, devem ter jurado os executivos “geniais” da industria fonográfica. Os “gênios” procuravam um novo “Martinho da Vila” e conquistaram João Nogueira para a aventura. Quebramos a cara. Todos nós, admiradores de João Nogueira e da boa música brasileira e o próprio João, quebramos a cara. Menos, é claro, os “donos da voz”, esses não perdem nunca.
Algum tempo depois deste artigo ter sido escrito, João Nogueira morreu... O espelho se quebrou. Deixou uma saudade imensa.
PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.


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