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"Helena Meirelles", por Aquiles Rique Reis

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Desde o Pantanal mato-grossense vem a trajetória dessa dama. Sua sabedoria vem desse santuário de vida. Ela é seca como um poema de João Cabral. Sua viola caipira tem sabor de fazenda do sertão. As cordas de seu instrumento obedecem às ordens de uma palheta que vibra ao sabor de seus dedos ágeis e rijos. Violeira de interior que cultua um tipo de vida desconhecido pela grande maioria da nossa gente urbana. Mulher que saiu de casa aos dezesseis anos para se casar com a vida. Ainda jovem, prostituta e analfabeta, percorreu estradas como um menestrel medieval a levar alento aos miseráveis de cada birosca do seu Mato Grosso. A peãozada lhe rende tributos. A mídia internacional lhe cobre de elogios – a revista americana Guitar Player, em 1993, apontou-a como virtuose da viola caipira – e nós, o seu povo, ainda que tardiamente, louvamos essa mulher magra, roupas coloridas, com os cabelos presos sob um chapéu de boiadeiro, argolas douradas enormes penduradas nas orelhas e uma echarpe presa ao pescoço e caindo-lhe pelas costas afora. Reverenciar Helena Meirelles é como dizer que ainda existe um Brasil que não se contaminou com a tal da globalização neoliberal. É chamar a atenção para uma cultura que nos faz vivos. É como nos curvar diante de uma força mística intuitiva, quase sobrenatural que vem da alma rica de uma dama de prostíbulos sórdidos que, mesmo assim, resta pura, quase angelical no som de sua cantoria. Anjo pantaneiro, mãe de onze filhos espalhados pelo mundo brasileiro, autodidata que tira som de qualquer instrumento de cordas, elejo-a minha matriarca da música brasileira.

        Olhemos para essas mulheres artesãs de um ofício mágico que nos remete ao tempo de crianças medrosas e creiamos na vida como resposta ao pavor do primeiro dia na escola, ao pânico pelo escuro que cega, à vontade de chorar que sentimos ao percebermos que a morte afasta de nós quem mais amamos e não os traz de volta.  Música que toca viola de dez cordas desde os nove anos de idade. Helena Meirelles, mulher que fabrica suas próprias palhetas com chifre de boi – aí está o segredo do som de seu instrumento, diz –, mas tem que ser antes do sol nascer e numa sexta-feira santa. Ela, que canta a “Chalana” e traduz nossos sentimentos interiores, está aí para mostrar o caminho que nos levará ao conhecimento. Essa Matriarca da Música Brasileira é uma mulher que revela a força que temos. Vamos segui-la para nos encontrar.

PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.



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