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"¿Hablas Espanhol?", por Magro Waghabi

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       Uma historinha que li no livro Deixa Que eu Chuto 2-A missão, do jornalista  Renato Maurício Prado.
       “Final da Libertadores da América na Venezuela: o cartola brasileiro, após o almoço, escolhe uma bela fatia de mamão para sua sobremesa. O maitre do restaurante, sabendo da importância do cliente, se acerca da mesa e pergunta gentilmente:
       – Como está su papaya (mamão, em espanhol)?
       – Mi papaya, infelizmente, já se murió, pero mi mamaya está muy bien, a los novienta e duês años...” Pano rápido!
       Nada contra o cartola, assim como ele, muita gente acha que falar espanhol é fácil. Existe até um anúncio de um curso de línguas mostrando, com bom humor, as gafes cometidas por quem pensa assim.
       E eu não escapei desse time. Quem cantou os boleros do Trio Los Panchos, acha que já domina o idioma espanhol. E foi com esta convicção que, junto com o MPB4 e mais uma trupe de artistas do Circo Voador, comandada pelo agitador cultural Perfeito Fortuna, partimos para o México, mais precisamente para Guadalajara, como representantes da cultura brasileira na Copa do Mundo de Futebol. Estávamos cheios de esperança em repetir o feito de 1970, quando conquistamos o tricampeonato a partir desta mesma cidade.
        A impressão que tive de Guadalajara foi de um povo apaixonado pelo Brasil e, especialmente, pelo nosso futebol. É claro que ficamos em um hotel diferente do da seleção brasileira, mas pelo fato de alguns jogadores curtirem MPB, o nosso hotel estava sempre recebendo a visita de Júnior, Casagrande, Júlio César e outros craques para um papo e uma roda de samba. Essas visitas atraiam uma multidão que, praticamente, cercava o nosso hotel, consumindo cerveja e fazendo uma algazarra imensa.
        Além disso, alguns fatos marcaram para sempre a minha memória daqueles dias no México. O povo mexicano gosta de demonstrar sua virilidade, mas essa cena ultrapassou os limites. Fomos ouvir os famosos mariaches num lugar interessante, uma construção tipicamente espanhola, cercando um enorme pátio, onde se tomava uma boa cerveja e apreciava-se a exibição do grupo musical mexicano. De repente, ouço uma voz anunciando: “Choques! Choques!”
        Um rapaz, trazendo uma caixa onde se acoplava uma manivela e de onde saiam dois fios, anunciava o produto que funcionava assim: o freguês pegava um fio em cada mão, o vendedor acionava a manivela e o freguês recebia um belo choque que, por incrível que pareça, o deixava feliz... Por que eu sei disso? Porque eu vi! Mas não experimentei, é claro.
         Experimentei foi o “coscoron”. Foi assim: havia um restaurante perto do nosso hotel, que virou ponto de encontro dos brasileiros em Guadalajara.
         E logo uma de suas mesas transformou-se no lugar mais disputado. Ocupada praticamente todas as noites pela maravilhosa dupla formada por Sérgio Cabral e João Ubaldo Ribeiro, provocava uma interessante disputa. Diante dela, formava-se uma fila para poder se sentar um pouco ao lado deles e desfrutar da inteligência e do humor dos dois craques da literatura.
         E, enquanto se esperava, bebia-se o “coscoron”, que exigia o seguinte ritual: o garçom trazia para o desavisado cliente uma taça de tequila e uma de soda limonada. O cara entornava as duas taças, sem engolir. O garçom, pegando a sua cabeça (não a sua, leitor, a do cliente) com as mãos, sacudia-a energicamente, misturando os ingredientes, e então o camarada, após ter sua cabeça transformada em coqueteleira, engolia a mistura resultante.
        Engraçado, né? Também não achei a menor graça, mas o pessoal adorava...
        Nossa temporada no México durou o suficiente para assistirmos a um treino da seleção e ao primeiro jogo do Brasil contra a Espanha... E para me provar que aprender espanhol só com letras de boleros não era o suficiente.
        Miltinho estava com assaduras e precisava de uma pomada? Fácil! Entramos numa farmácia e pedimos “una crema para assaduras”... fomos encaminhados a uma churrascaria. Penamos até descobrir que assadura em espanhol é salponido...
        Fui tomar banho e descobri que a camareira havia se esquecido de colocar a toalha, quando arrumou meu apartamento. Fácil!
        – Recepcion, buenas tardes, puedo ayudar?
        – Señor, por favor, yo necessito “toajas”.
        – Como, señor?
        – Toajas, señor, para después del baño!
        – Señor, no compreendo...
        – Toajas, señor! Que sirven para enjugar la piel después del baño!!!
        – Para después del baño, señor? El señor quiere decir toalha?
        – Hã?
        – Una toalha...?
        Pano rápido!
        Na verdade, toalha em espanhol se escreve toalla, mas a pronúncia é idêntica à nossa...
        Já estava mesmo na hora de voltar para o Brasil.



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