dvd_coluna


Entrar

"E a filha do Juvenal...", por Magro Waghabi

fonte mais fonte menos Imprimir

              Em um determinado momento da vida política brasileira, surgiu a esperança de redemocratização, que levou o nome de abertura.
 
  Por conta do esforço denunciador das artes, dos estudantes, da sociedade civil, que começava a se organizar, dos sindicatos e da imprensa falada e escrita, a tirania política começou a perder a força e uma luz surgia no fim do túnel.
 
          O MPB4 havia completado vinte e cinco anos de profissionalismo e comemorava a data com um show e um disco lindos, com músicas escritas especialmente para o show e um texto delicioso de Luís Fernando Veríssimo. O tema que envolvia tudo, texto e músicas, era a amizade, celebrada entre nós.
 
          Marcos Feijão, filho do Miltinho, na bateria; João, filho do Ruy, no contrabaixo; Pedro, filho do Aquiles, na guitarra e Eduardo, meu filho, no teclado, completavam a alegria no nosso aniversário de vinte e cinco anos. Este show passou pelas grandes casas de espetáculos das capitais do Brasil, além dos especiais nas principais emissoras de TV.
E depois da temporada de lançamento, começaram as viagens com apresentações pelas cidades e teatros do interior.
 
Fomos contratados para fazer um show em Pirassununga, interior do Estado de São Paulo. Até aí, tudo bem. Acontece que o show seria na base aérea sediada na cidade e, apesar dos acenos de paz lançados pela tal da abertura, ainda estávamos ressabiados e marcados pela luta recém terminada contra a censura.
 
Acontece também que, entre as músicas do show, havia uma parceria do Luís Fernando Veríssimo comigo, chamada “Parceria em Marcha Lenta”, que contava a história de dois compositores que queriam fazer uma música de sucesso, mas eram muito lentos para compor. Quando conseguiam fazer uma parte da música usando um estilo que estava na moda, a moda já havia mudado. O resultado é que a música virou uma colcha de retalhos das modas musicais brasileiras. E, é claro, tinha uma parte em que os parceiros tentavam imitar a famosa “música de protesto”.
 
Como a letra era caricatural, na hora da música de protesto, o texto era bem exagerado. Num determinado momento, valendo-se de uma estereotipada letra inspirada na música “Carcará”, de João do Vale e José Cândido, os cantores ameaçavam: “Fazendo canção pro povo/ E figa pra general!/ E a filha do general.../ A gente pega, mata e come!”
 
E aí surgiu um dilema: 
“Mas gente, nós vamos cantar dentro da base aérea, no ninho deles!”
“O que é que tem, o tempo da repressão passou. Acho que não tem nada de mais.”
“Mas... E a filha do general, cara? Será? Sei não...”
“Acontece que este número é muito forte e não podemos abrir mão dele. A gente pode substituir este trecho da letra, nesta hora, por outra coisa.”
“Que tal: e a filha do Juvenal, a gente pega, mata e come?”
“Legal!” “Fazendo canção pro povo e figa pro Juvenal, e a filha do Juvenal a gente pega, mata e come! Gostei!”
“Então, o que vocês acham? Fica assim?”
“Tudo bem, mas não vão me trocar a letra na hora. É Juvenal hein, pessoal?! Ju-ve-nal!
 
Estava resolvido o nosso problema. Não deixaríamos de cantar a música, que era muito aplaudida, e nos livraríamos do inconveniente “general”.
 
O show foi um sucesso. Muitos aplausos, muitos autógrafos e um convite do comandante da base aérea para jantarmos em um dos restaurantes da cidade, especializado em peixes de rio.
 
Comemos muito bem. Eram peixes de couro, pintados e douradas, muito bem preparados. Comi um lombo de dourada, do qual me lembro até hoje.
 
Assim como não me esqueço da conversa com o comandante. Muito gentil, em determinado momento, ele quis tirar umas dúvidas.
 
Dentre elas, a seguinte:
“Digam-me uma coisa, naquela música dos parceiros em marcha lenta, não entendi porque vocês cantaram Juvenal ao invés de general. Ficaria com muito mais cara de canção de protesto, se vocês tivessem colocado general no lugar de Juvenal...
Pano rápido.


Voltar ao topo

Contato para Shows e Eventos:

Mil Tons Produções Artísticas - Milton Santos Filho
Tel.: (21) 2540.5741 Tel/Fax.: (21) 2259.5512

MPB4 © 2004-2007 - Todos os direitos reservados