7 de junho de 1970, um domingo. Até aí, nada demais. Só que neste domingo, às 15 horas, jogariam Brasil e Inglaterra, pra mim um dos maiores jogos de Copa do Mundo de todos os tempos.
Corta para Porto Alegre, dia 5 de junho de 1970. O Teatro Leopoldina apresentava o show de Chico Buarque e do MPB4, numa pequena temporada de sexta a domingo. Mas a pouca presença de público na estreia apontava para um fracasso.
Doeu quando alguém disse uma frase da qual não me esqueci: “Ninguém sente cheiro de Chico Buarque”, querendo dizer que sem uma boa promoção, nem Chico Buarque, no auge da fama, traria o público ao Leopoldina.
Além disso, estávamos em plena Copa do Mundo, com um time poderoso e uma estratégica promoção do governo Médici destinada a encobrir os desmandos e torturas do regime militar comandado pelo general.
No dia 3, o Brasil havia jogado contra a Checoslováquia e ainda discutíamos, Chico e eu, se aquela bola magistralmente chutada por Pelé, ao ver o goleiro checo adiantado, teria passado a 50 centímetros do gol, como eu afirmava, ou a um palmo, palmo e meio, como afirmava Buarque.
Já no sábado, após o show assistido por não mais do que duas dezenas de pessoas, estávamos desanimados quando Chico propôs:
– Pelo show de hoje dá pra prever o de amanhã. Ainda mais que amanhã jogam Brasil e Inglaterra... Acho que está na hora de ir embora! Provocou. Creio que era o que todo o mundo também pensava.
Ao chegar ao hotel, as malas foram arrumadas e descobrimos o horário do primeiro voo no dia seguinte – acho que o único, naquele junho de 1970 –, para o Rio de Janeiro.
No domingo, sem avisar aos incompetentes produtores locais, táxi para o aeroporto e, pra sorte nossa, conseguimos marcar as passagens num voo, quase vazio, que partiria às 12 horas.
É preciso dizer que a Varig, companhia que operava exclusivamente a linha Porto Alegre–Rio de Janeiro, usava os eficientes e saudosos Electra, poderosos turbo-hélices que faziam o trajeto entre as duas cidades em, aproximadamente, três horas. Ou seja, se tudo corresse bem, pousaríamos no aeroporto do Galeão na hora em que o jogo começasse.
Ao saber da nossa intenção de assistir o jogo no Rio de Janeiro, o comandante, que também estava louco pra ver o jogo, disse que faria o possível para diminuir o tempo de viagem. E assim fez!
Quando pusemos os pés no saguão do aeroporto, o jogo estava começando... Vamos embora pessoal!!!
Correria para pegar um táxi – eu e Miltinho embarcamos num fusquinha. Na década de 1970 imperavam os táxis Volkswagen (meninos, recorram à internet, por favor) que, para poder receber os passageiros, retiravam o banco do carona, podendo com isso levar no máximo três pessoas. As malas, que raramente cabiam no estreito cofre do carrinho, iam no lugar do banco da frente.
– Vamos, motorista! O jogo já começou!
A cena a seguir daria um filme, que começaria com uma tomada aérea do Rio de Janeiro, mostrando a cidade vazia, exceto por três fusquinhas rodando a toda velocidade, isto quer dizer uns 90km por hora, aproximadamente. Um espanto.
(Para quem não conhece a geografia da cidade maravilhosa, eu digo: o Galeão, aeroporto que permitia o pouso dos Electra, fica na zona norte, que se liga, preferencialmente, à zona sul, onde morávamos, por um túnel, o Rebouças. E para chegar ao túnel, a maneira mais rápida é pelo elevado Paulo de Frontin).
E lá iam os fusquinhas rumo à zona sul, quando, na curva que leva ao elevado, um deles pareceu ter passado por um quebra molas, tal o salto que deu. Mas nada disso, não havia quebra mola algum...
Naquele exato momento, aos 10 minutos do primeiro tempo, Carlos Alberto lançou Jairzinho que quase na linha de fundo cruzou para que Pelé, numa cabeçada real – para baixo, como manda o figurino das cabeçadas reais – provocasse o grito de gol no locutor que narrava o jogo no radinho do fusca, pelo qual acompanhávamos a partida.
Mas nem o locutor, nem nós, nem o Brasil, nem a Inglaterra, nem o mundo, nem Marte, contavam com o salto espetacular do goleiro inglês, Banks, que conseguiu espalmar a bola milagrosamente, pegando-a por baixo e fazendo com que ela fosse por cima do travessão.
Foi esse lance que causou o salto do fusquinha, dos passageiros, do motorista, do locutor e, porque não dizer, do fusquinha... Todos saltando juntos na emoção do lance.
Tirando isto, e a sempre renovada emoção de mergulhar na incrível paisagem da Lagoa Rodrigo de Freitas, quando a escuridão do túnel acaba, chegamos ao apartamento de Maurício Tapajós, onde, para nossa alegria, veríamos Pelé retribuir o passe que recebera de Jairzinho, deixando o atacante com a bola na medida para desferir um “canhonaço” que Banks nenhum conseguiria defender. Brasil um a zero!!!
Só não me perguntem como foi o restante daquele domingo, sete de junho... Os eflúvios alcoólicos o envolveram numa neblina impossível de desfazer.
Eta, joguinho bom!!!
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