A primeira vez que enxerguei Niterói foi quando me afastei dela. Como minha cidade crescia à medida que a velha Cantareira se afastava rumo ao Rio de Janeiro, ao desconhecido. Como me sentia pequeno compreendendo que Niterói não era do meu tamanho.
Eu que conhecia o mar de Icaraí, sentia medo do mar na Baia de Guanabara. Imenso! O balanço da barca, inevitável no meio do caminho entre o conhecido e o desconhecido, me causava uma sensação meio esquisita de tristeza, de perda que, como numa sinistra premonição, decretava que uma dessas viagens semanais um dia seria definitiva. Niterói estaria perdida para sempre para aquele menino encantado com os botos à tarde e fascinado pela estrela-d’alva à noite, contemplados da janela da barca.
Pensando nisso, aos dezessete anos, de manhã bem cedinho e olhando Niterói que ficava cada vez mais distante, percebi a confirmação da premonição infantil. Eu estava perdendo Niterói. Mais tarde, dentro do ônibus que corria para São Paulo, coração aos pulos, tentei me encorajar: “Você tem a seu lado três companheiros... Você não está só... Daqui a trinta dias você volta para casa, Aquiles... Você não quer conhecer a Elis Regina? Você não quer cantar no Fino da Bossa, da TV Record?” Claro, era isso o que eu tanto sonhara, era isso o que eu mais ansiava: conhecer Elis Regina.
Na verdade eu temia a Elis. Ouvia dizerem que seu gênio era difícil, que vivia brigando com todo mundo, que gritava, que xingava e o diabo a quatro. Mas... Era um sonho.
Quando cantamos no Fino da Bossa, cantamos já na segunda parte, a que era televisionada para o Brasil inteiro. Um sonho para nós, estudantes, ainda amadores e meros aspirantes a um mundo de sonhos que só conhecíamos pela televisão. Mas teve mais. Logo de cara, cantamos com Elis Regina!
No centro do palco lá estava ela, risonha. Era ensaio para o programa. Cumprimentei-a, ela abriu um sorriso. Gelei. O maestro contou os compassos da introdução e, então, começamos a cantar “Samba Lamento”, de Luiz Marçal, junto com o Quarteto em Cy e Elis Regina. Quer dizer, acho que cantei, na verdade, acho que só pensei. Pensei no que diriam todos, lá em Niterói, ao me verem cantando junto com a Elis, no Fino da Bossa.
Elis Regina tornou-se para mim um enigma. Tentava de todas as formas decifrá-la em vão. E quem poderia fazê-lo? À época, convenci-me de que ninguém. Quem poderia entender aquela mulher elétrica, briguenta, amorosa e com aquele sorriso juvenil? De onde viria aquela voz límpida e emocionada, afinadíssima e clara? Quem poderia traduzir aquele vulcão apaixonado?
João Marcelo Bôscoli, seu filho, conseguiu defini-la num artigo na Folha de S. Paulo, de 18 de Janeiro de 1997. Segundo ele, “ela se apoiou em intensidade, coragem e emoção”. Isso mesmo, João. Que mulher corajosa! E, como sentimos sua falta.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.
MPB4 © 2004-2007 - Todos os direitos reservados