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"Dino Sete Cordas", por Aquiles Rique Reis

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Sem dúvida, o violão é o instrumento musical mais popular que existe. Em qualquer bairro de cada cidade, alguém conhece alguém que toca violão. Arranhar as cordas mi, lá, ré, sol, si, mi de um violão é passatempo e diversão para pessoas de todas as idades e classes sociais. Fascinam as rodas que se formam para escutar o amigo que tem o dom de dominar o instrumento mais democrático e agregador que conhecemos. Seja numa serenata em Conservatória, no Rio de Janeiro ou em São Luís do Paraitinga, em São Paulo, numa mesa de boteco, nas comemorações pelo emprego novo, nas festas de fim de ano, na alegria pela conquista de uma nova namorada, na fossa pela perda de um grande amor, em meio ao alarido de um porre memorável que comemora mais um aniversário, em todos os momentos de confraternização é sempre bom ter um violão por perto. Ao músico amador é concedida a honra de ser o centro das atenções, de ser o alvo do olhar das moças encantadas pelo dedilhar das seis cordas que amarram emoções e libertam sentimentos. É sempre bom conhecer alguém que, ainda que desengonçado, conheça as canções que amamos e consiga dedilhá-las em seu instrumento, remetendo-nos a um mundo de magia, onde as encrencas do dia a dia se amenizam e tornam-se suportáveis.

Feliz de quem tem um amigo que toca violão. Bem-aventurado aquele que pode ter um profissional do violão em suas relações de amizade. Conviver com quem domina as manhas de um instrumento que tem a forma de um corpo de mulher, que dedilha suas cordas e as faz suas servas atenciosas e meigas, é uma dádiva concedida a poucos privilegiados. Horondino José da Silva, o Dino é de uma generosidade grandiosa. Concede sua amizade a uma legião de pessoas. Empresta seu convívio a um grupo imenso de pessoas que se delicia ao ouvi-lo tocar e se encanta com seu humor cativante. Ele é o rei da frase de duplo sentido criado por cacófatos divertidíssimos. O mestre toca magistralmente desde os catorze anos. Integrante do Regional de Benedito Lacerda, mais tarde Regional do Canhoto, formou ali, junto com Jaime Florense, o Meira, outro mestre do violão, uma dupla insuperável de violonistas. Mas o Mestre Dino não se contentou com as seis cordas do violão. Nos anos 1950, espelhando-se em Tute, outro exímio instrumentista, encomendou um violão de sete cordas e passou a tocá-lo. Um violão com uma sétima corda grave afinada em dó permitiu-lhe desenvolver fraseados melódicos geniais, dedilhados no ritmo apressado de chorinhos e sambas compostos pelos bambas de ontem e hoje. O bordão da corda dó brilhou em discos e shows de diversos astros da música brasileira, sempre cumprindo as ordens vindas dos dedos das mãos de Dino Sete Cordas. Virtuoso, ele pode orgulhar-se de ser a história viva do violão brasileiro. Professor brilhante, até hoje pode se gabar de ter ensinado seu ofício a diversos violonistas, dentre eles o exuberante e saudoso Rafael Rabelo.

Sou daqueles privilegiados que conviveram com Dino. Nos bastidores do Teatro Opinião ou nos estúdios de gravação, aprendi a gostar de um instrumento que nas suas mãos ganha uma dimensão misteriosa e deslumbrante. Esse pajé da música brasileira, num dialogo com outro músico num estúdio de gravação, mandava os cacófatos característicos do seu humor. Leia com segundas intenções, por favor: “Você, que chegou a pouco de fora e está louco de raiva, fique sabendo que o meu negócio está de pé, agora só fica faltando uma posição sua. Lembranças a quem for da família”.

PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Dino nos deixou algum tempo depois. Saudades...



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