Mulher negra. Perfil de rainha. Voz grave e emocionada. Mulher sensual. Estrela de tantos carnavais. Seu brilho nas telas do cinema brasileiro na década de 1950 deveu-se ao fantástico Carnaval em Marte, de Watson Macedo. Mulher trabalhadora. Seu ofício de cantar vem do tempo em que trabalhava numa casa de família protestante, no município fluminense de Trajano de Moraes, sua terra natal. Lá ouviu e aprendeu os hinos religiosos cantados pelas pessoas da casa.
Sua vida artística começou a mudar quando, por sugestão do compositor Henricão, trocou o nome de batismo, Carmelita Madriaga, pelo pseudônimo Carmen Costa. Do final dos anos 1930 até início da década de 1940, tentou a sorte musical formando uma dupla com Henricão. Alguns discos 78 rpm foram lançados pelos dois sem que conseguissem fazer o sucesso tão almejado. Foi quando Henricão e Rubens Campos resolveram arriscar uma versão da valsa mexicana “Cielito Lindo”. Carmen Costa gravou-a – foi sua primeira gravação individual – com o nome “Está Chegando a Hora”.
No carnaval seguinte só deu Carmen Costa e seu primeiro e extraordinário sucesso: “Quem parte leva saudade de alguém/ Que fica chorando de dor/ Por isso não quero lembrar/ Quando partiu meu grande amor/ Ai, ai, ai, ai; ai, ai, ai, está chegando a hora/ O dia já vem raiando meu bem/ Eu tenho que ir embora”. A partir daí, outros êxitos foram acontecendo na carreira e na vida dessa cantora de talento. Quem não se lembra de “Cachaça Não é Água”, de Mirabeau, Héber Lobato e Lúcio de Castro, ou de “Jarro da Saudade”, de Mirabeau, Geraldo Blota e Daniel Barbosa: “Iaiá, cadê o jarro? / O jarro que eu plantei a flor? / Eu vou te contar um caso/ Eu quebrei o jarro e matei a flor/ Que maldade, que maldade/ Você bem sabia que no jarro de barro eu guardei a saudade”. Outro sucesso foi “Se Eu Morrer Amanhã”, de José Garcia: “Se eu morrer amanhã/ Não levo saudade/ Eu fiz o que quis/ Na minha mocidade/ Amei e fui amada/ Beijei a quem eu quis/ Se eu morrer amanhã de manhã/ Morrerei feliz, bem feliz”.
Os anos 1950 e 1960 foram tempos de sucesso para Carmen Costa. Os carnavais e o cinema deram para nossa matriarca o que ela sempre sonhou: o reconhecimento e o carinho do público.
Pelas ondas do radio e através da tela do cinema conheci Carmen Costa. Minha juventude foi sonorizada por ela.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora, em 2004.
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