Há algum tempo venho revelando minha admiração e carinho por mulheres que são responsáveis por nossa música ter esse dom de representar o caráter e a personalidade do povo brasileiro. Através dessas mulheres, que passei a identificar como matriarcas da música brasileira, tento adquirir um pouco da doçura feminina. Tento incorporar parte da força delas, mulheres batalhadoras em seu ofício de fazer canções, e, principalmente, beber da fonte de musicalidade de mulheres que vêm alimentando gerações de brasileiros ao longo das últimas décadas.
“Quem sai aos seus não degenera”, diz o dito popular. Nossa gente consegue manter a integridade e a honestidade mesmo diante de exemplos sórdidos de políticos que, depois de conquistarem nossos votos, se vendem por qualquer dinheiro sujo que corrompe a mais bela e forte forma de governo que a humanidade conhece: a democracia. Devemos esse sentido de cidadania às mulheres, e a essas mulheres, em particular, que fizeram a trilha sonora da história que protagonizamos quando jovens. Veio delas o som que nos acalentou quando meninos e meninas que éramos. Época onde nada sabíamos. Que a tudo temíamos. Nós, brasileiros, custamos muito para conseguir que o nosso país passasse a respirar o saudável e imprescindível ar democrático. Foi preciso muita luta. Algumas vidas se perderam ao longo do caminho que nos levou a esse momento e que precisa, e muito, ser aperfeiçoado. Há muito a reclamar, sem dúvida. Há muito a conquistar, claro, mas, feliz da gente que tem a quem escutar. Feita para ter sonhos é toda a gente que tem canções criadas por pajés e matriarcas que cantam e tocam por nossos anseios. Aí reside nossa força. Vem daí nossa esperança.
Carioca da zona oeste do Rio de Janeiro, nascida em Bangu, Carmélia Alves poderia ter sido uma Rainha do Rádio cantando sambas ou marchas. No entanto, filha de cearenses que é, e de tanto ouvir os repentistas que freqüentavam sua casa e improvisavam seu canto versos de saudade de um Nordeste tão distante, a menina Carmélia se deixou seduzir pelos baiões que viriam a ser a forma de expressar sua arte.
Os programas de calouros das rádios Tupi e Nacional foram o trampolim para o som nordestino com sotaque carioca de Carmélia Alves. A voz da moça carioca encantava os nordestinos que viviam no Rio de Janeiro e também conquistava os que nasceram no sul e sudeste brasileiros. O sucesso chegou para Carmélia Alves em 1949, quando, junto com Ivon Curi, gravou o baião de Hervé Cordovil e Rochinha “Me Leva”. Já no ano seguinte, Carmélia foi eleita a Rainha do Baião, título que ostentou por toda década de 1950 graças à gravação de outros baiões, como: “Trepa no Coqueiro” de Ari Kerner; “Sabiá Lá na Gaiola” de Hervé Cordovil e Mário Vieira e “Cabeça Inchada” de Hervé Cordovil.
Viajou mundo, a Carmélia Alves. Espalhou aos quatro ventos o canto de uma brasileira que canta a vida de sua gente. Fez ouvir a voz de uma mulher que precisou se desdobrar para ser respeitada e querida. Fez filmes a Carmélia Alves. Deixou a tela de cinema mostrar as imagens do povo brasileiro que canta, que ri, que sofre, que sente saudade, mas que sonha e carrega em sua alma o fogo de uma chama que se renova. Um povo que tem mulheres como Carmélia Alves há de seguir seu destino de criar uma nação justa.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.
MPB4 © 2004-2007 - Todos os direitos reservados