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"As matriarcas da música brasileira", por Aquiles Rique Reis

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Elas são as donas de tudo. Delas vêm nossos sonhos mais primitivos. São elas que nos alimentam com seus cantos. Essas mulheres dão vida à nossa cultura. São elas que compõem em nosso dia a dia a possibilidade de essa nação de cinco séculos ser menos injusta, mais delicada e carinhosa, mais gentil e sensual. Carmen Costa, Nora Ney, Emilinha Borba, Helena Meirelles, Carmélia Alves e Marlene, em nome apenas do meu desejo de homenageá-las, elejo-as matriarcas da música brasileira. São vocês as provedoras que nos conduzem pelas ruas de nossos destinos incertos. Pelas suas mãos passam os instrumentos que constróem um país de sons comoventes. De suas gargantas e mãos privilegiadas ecoam as canções que enriquecem nossas vidas. Sem vocês, matriarcas, seríamos meros espectadores de uma vida que passa sem graça e sem destino. Ao ouvirmos seus dedilhares e cantares tão diferentes uns dos outros, podemos ter certeza de que tudo vai dar certo, de que nem tudo está irremediavelmente perdido como pode parecer.

Pretendo falar de cada uma de vocês. Quero dizer-lhes o quanto agradeço por vocês existirem. O quanto cada uma de vocês me emociona. Sei que falarei por muitos, pois estarei expressando a vontade de todos os que crêem que sem vocês seríamos piores. Seríamos mais pobres e rudes. Principalmente, seríamos infinitamente menos musicais. Suas músicas falam de amor, de dor, de ódio, de ciúme, de paixão, mas acima de tudo são poesias ditas por mulheres que têm brilho, que mostraram o passado, iluminam o presente e apontam o caminho do futuro. Futuro feminino. Futuro gerado no útero da generosidade incondicional que só vocês mulheres conseguem ter. Homenageando-as, pretendo homenagear as mulheres dessa nação – índias, negras, brancas, faveladas, sertanejas, quebradeiras de coco, miseráveis ou ricas – que dão o tom que devemos seguir. Matriarcas, são vocês que determinam o ritmo que devemos imprimir às nossas vidas. Por isso as amo. Por isso preciso do talento e da força de vocês.

Falando dessas seis mulheres que juntas resultaram em mais de 460 anos, pretendo revelar-lhes o quanto sou dependente da iniciativa feminina. Creio no milagre que vem da vida que nasce em vocês, mulheres. Sou natural do ventre de uma mulher que ainda hoje me protege e guia. Sou pai de crianças geradas em mulheres que serão sempre o alimento da vida deles. Tenho amor profundo por uma mulher companheira da qual dependo visceralmente e que gerou em seu ventre a semente Isabel. Escrevendo em homenagem a vocês, minhas matriarcas da música brasileira, a todas elas reverencio.

PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.



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