Imaginem o seguinte cenário: um quarto num apartamento da zona sul do Rio de Janeiro. Um violão encostado numa das paredes. Um piano. Algumas cadeiras. Um quadro na parede... Tinha? Não lembro. Deixa pra lá. Imaginem, então, uma cena: o Severino Filho sentado ao piano. Quartera tendo à sua frente apenas a caixa de uma bateria. Luís Roberto praticamente escondido atrás do baixo acústico. Sobre o piano, partituras musicais. Muitas. Imaginaram aquele violão encostado numa das paredes? Esqueçam. Ele está nas mãos do Badeco. Imaginem um som. Não qualquer som. Um som absolutamente diferente de tudo o que seus ouvidos jamais sonharam registrar. Coisa de arrepiar. Continuem imaginando, peço-lhes: um elevador que sobe andar por andar. Vocês já viram elevador que suba de outra forma? Nem eu. Mas lá vai ele, o elevador, levando quatro jovens. Garanto-lhes, leitores, que eles já foram jovens um dia. Têm testemunhas, inclusive. Mas voltemos ao exercício de imaginar: um hall de entrada de apartamento tipo um por andar. Os quatro jovens desembarcam do elevador. Tocam a campainha. No breve tempo que separa alguém ouvir o blim-blom e ir à porta abri-la, eles acham por bem... Cantar. “Ela é Carioca”, do Tom e Vinícius. Como os jovens são metidos, não? Nem era a música toda, não, sabiam? Apenas algumas frases. Poucas. De tanto ouvir o long-play de seus mestres, já haviam decifrado cada uma das quatro vozes daquele arranjo genial. Reverência em forma de imitação. Faltavam poucos minutos para que os quatro jovens se vissem frente a frente com seus ídolos. Era muita vontade de agradar. Principalmente de agradecer pela generosidade de lhes terem sido abertas as portas daquele paraíso sonoro.
Os Cariocas estavam ensaiando. Vindos lá de Niterói, os quatro jovens foram recebidos com carinho pelo Severino, pelo Luís Roberto, pelo Quartera e pelo Badeco. Convidados a sentar... sentaram-se, claro. Os Cariocas ensaiavam “Tema pra Quatro”, do Severino Filho. Arranjo supercomplicado. Eles preparavam um novo long-play. Estavam, portanto... trabalhando. Os quatro jovens sentiam-se numa festa. Festa no céu. Sonharam com aquele momento dias seguidos. Ardia o desejo de pedir para que cantassem um de seus grandes sucessos. Ficar a tarde toda ouvindo uma mesma frase melódica, mesmo sendo ela cantada pelo Os Cariocas era um pouco demais, não é não? Os jovens de Niterói queriam, mas felizmente não ousaram pedir que seus mestres cantassem. Puxa, já pensou se eles resolvessem, para relaxar, cantar “Minha Namorada”, do Carlinhos Lyra e do Vinícius? Já pensou, nós ali, na cara dos caras? Ouvir bem de pertinho os falsetes superafinados do Severino? Prestar atenção naquela harmonia moderna e de extremo bom gosto? Sentir de perto a respiração deles? Mas Os Cariocas estavam ensaiando “Tema pra Quatro”.
Vivendo e aprendendo. Até os grandes mestres podem vacilar. Severino “passava uma voz” pro Badeco. Não havia jeito de o grande Badeco aprender aquela voz. Realmente, era uma passagem harmônica extremamente difícil aquela. “Vamos mais uma vez”, dizia o maestro. E mais uma e outra e mais uma e outra. Porém, aflitos com a dificuldade do Badeco, quando Severino pediu “mais uma vez”, os quatro “bicões” ajeitaram-se na cadeira. Naquela nota fatídica, um décimo de segundo antes, porém, os quatro jovens de Niterói cantaram a nota. Em uníssono. Coisas de jovens. Metidos a besta. O maestro Severino Filho propôs irem todos tomar um café. Acabou o ensaio.
Hoje, o MPB-4 continua reverenciando amorosamente Severino Filho, Hernane Ramalho de Castro, Neil Teixeira e Eloi Vicente. Eternamente Os Cariocas.
Conto originalmente publicado no livro "O Gogó de Aquiles", lançado em 2004 pela editora A Girafa.
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Nossa...fiquei arrepiada com o causo do Aquiles. Deve ter sido uma "festa do céu", como ele mesmo sentiu, ao se encontrar com os Cariocas.
Roselene Cândida