Tinha gente que imaginava códigos, tinha gente que lia nas entrelinhas e tinha gente que ouvia nas “entrenotas”. Havia quase uma necessidade de sempre perceber denuncias das arbitrariedades do regime militar – que vigorou após o golpe de 64 –, disfarçadas nas músicas, nas notícias e nas peças teatrais.
O show “Construção”, com Chico Buarque, MPB4, a Orquestra Sinfônica Brasileira regida pelo maestro Isaac Karabtchewsky, o pianista Jacques Klein e a bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, sob a direção de Manoel Carlos, foi um divisor de águas no showbiz brasileiro. Misturando erudito e popular, e usando recursos tecnológicos inéditos até então, o show foi encenado no Canecão, no Rio de Janeiro, em 1971.
A temporada, prevista para 3 meses, teve que ser prorrogada por mais noventa dias, sempre com casa cheia. Ao mesmo tempo em que atuava no Canecão, Chico Buarque gravava o disco de mesmo nome, e coube a mim a sua direção musical. Na verdade, minha participação foi um pouco além: quase produzi o disco, já que, fazendo os arranjos da maioria das faixas, tive que cuidar da produção das três faixas para as quais não escrevi. Pudera!!!
Uma delas era “Olha Maria”, letra que Chico colocou na melodia do maestro Tom Jobim. Quem sou eu!!! Consegui convencer o maestro a fazer o arranjo e ele mesmo gravou ao piano, ao lado do filho Paulo Jobim, que, creio, fazia sua estréia gravando em estúdios. A outra, a magistral “Construção”, havia sido orquestrada para o show pelo maestro Rogério Duprat, e envolvia todo o elenco: Chico, MPB4, a OSB e a bateria de Padre Miguel. Para que ela pudesse ser gravada, pedi ao maestro Ivan Paulo que fizesse uma redução no número de músicos, para que eles coubessem no estúdio – mesmo assim foi um susto, ver aquela multidão tomar conta do estúdio da Polygram, na Avenida Rio Branco. E a terceira, o “Samba de Orly”, gravada só com o violão de Toquinho e a percussão do Trio Mocotó.
Me orgulho desse trabalho e fico rindo ao me lembrar de um fato que aconteceu com “Deus Lhe Pague”. Lá vai: no show, o arranjo era do maestro Orlando Moraes, mas como eu não “via” este arranjo no disco, resolvi me desafiar e fazer outro, com quatro trombones, duas flautas, um berimbau, percussão, viola de dez cordas, contrabaixo, bateria e violão.
Dia da gravação. Mas como eu poderia reger? Para solucionar a questão, pedi ao meu amigo Roberto Menescal que dirigisse a gravação de dentro do “aquário” – lugar onde ficam as máquinas e os técnicos de gravação, que é separado da sala onde os músicos gravam por um enorme vidro (daí o nome).
O arranjo ia num crescendo de massa sonora e agressividade, até que, num determinado momento, a viola, tocada pelo “monstro” José Menezes, respondia as frases que Chico cantava com um “rasqueado” (a palheta passa nas cordas para cima e para baixo num ritmo parecido, usando uma onomatopéia, com “pacapacapá”). Menescal, ouvindo isso e percebendo a intenção do arranjo me sugeriu:
– “Magro, por que você não dobra este “rasqueado” com a caixa da bateria? Acho que ficaria mais vigoroso.”
– “Boa idéia, Menesca!” Respondi e imediatamente pedi ao baterista para que, com rufos na caixa, dobrasse a frase da viola.
Disco gravado e mixado. Marcamos uma primeira audição para os amigos no apartamento do Chico, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Foram muitos e merecidos os elogios, Chico estava compondo como nunca, os arranjos estavam bonitos... A audição foi emocionante! Logo a seguir, estávamos conversando, quando sou puxado para um canto por um dos convidados que me segreda:
– “O arranjo de ‘Deus Lhe Pague’ ficou maravilhoso, principalmente pela denúncia que você fez no arranjo... Aquela metralhadora me arrepiou!”
– “Metralhadora???”
Vixe! Veja o que você arrumou, Menescal!!!!
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