Estávamos no final da escolha do repertório do disco “Vira, Virou”, nosso primeiro trabalho pela nova gravadora Ariola, quando Wellington Lima, nosso amigo e produtor do disco nos mostrou a música “A Lua”, de um compositor desconhecido pra nós, Renato Rocha. Foi paixão à primeira vista e ela entrou imediatamente no repertório do disco para se transformar num dos grandes sucessos do MPB4.
Soubemos também que “A Lua” fazia parte de uma série de composições dedicadas às crianças, com músicas do Renato e algumas parcerias dele com Geraldinho Azevedo, Geraldo Amaral e Renato Tapajós. Apaixonados pelo repertório decidimos gravar um disco infantil que se chamou “Adivinha o Que É”, título de uma das musicas e, dirigidos pelo competente Benjamim Santos, ensaiamos a peça infantil de mesmo nome, uma criação livre e magistral do próprio Benjamim sobre as músicas do disco.
Livre, magistral e absolutamente exaustiva para nós que, além de cantar, tivemos que mostrar nosso lado circense, com piruetas, mágicas e muita correria. Mas que agradava, e muito, às crianças e aos pais que as levavam para nos ver durante os cinco fins de semana em que ela ficou em cartaz no Canecão, no Rio de Janeiro.
Pois foi isso mesmo! Nas tardes de sábado e domingo a, na época, principal casa de espetáculos do Rio de Janeiro ficava cheia, com a meninada e seus pais que iam ver as aventuras dos “4 cantores malucos” na terra dos sonhos. Participavam do show os 5 músicos da “Banda Areia” que, na peça, se transformavam nos “músicos das trevas”...
Tudo se passava no país dos sonhos e algumas cenas, além de exaustivas para nós, eram muito engraçadas como, por exemplo, a “guerra de travesseiros” e suas conseqüências.
Hora de dormir e os 4 “meninos” armavam todo o tipo de travessuras que as crianças armam quando vão dormir juntas. Cascudos e tapas aconteciam e, um por um, iam fazer xixi num balde que fazia o papel de “pinico”. A platéia via, claramente, os meninos fazendo xixi, de costas, enquanto nós esvaziávamos uma bisnaga, do tipo que se usa para colocar catchup ou mostarda, com água no “pinico”.
Logo depois começava a guerra de travesseiros com muita movimentação e, de repente, um de nós pegava o balde-pinico e saia correndo atrás dos outros que, despencavam palco abaixo numa correria louca até que um, acuado contra a plateia, recebia, para horror da mesa que estava por trás, o conteúdo do balde que, por ter sido trocado durante a guerra de travesseiros, estava cheio de confetes!
Era um susto e uma gargalhada geral e o show continuava com o cantores malucos cantando, enquanto tentavam respirar, mais uma música.
-Mas, Magro, onde é que entra o “show capenga”???
-Caramba! me empolguei e não contei o motivo principal do “causo” que aconteceu justamente na estréia! Assim se deu:
Ensaiamos muito mas estréia sempre foi e sempre será estréia, ainda mais uma estréia para um público exigente como aquele, “tudo di menó”...(é verdade, tinha os pais mas naquele momento a nossa preocupação era a garotada).
O show começava com o palco em penumbra e os 4 cantores malucos entrando, todos com meias, de “ceroulas” e camisas de pijama de malha(a propósito, o show não tinha textos, tudo era gestual e pontuado pelos sons da “Banda Areia”). Era uma fila e eu era o primeiro que, depois de andar, um pouco à frente dos outros, vislumbrava a “BOCA DA NOITE”, misteriosíssima, e voltava correndo para avisar os outros. Dava de cara com Miltinho que, não entendendo nada do que eu queria dizer, me dava um tapa que me fazia rodar, numa pirueta, caindo ao chão para alegria da garotada.
Mas a estréia e a empolgação de fazer bem feito às vezes faz com que a gente exagere. E foi o que aconteceu. No primeiro tapa do Miltinho eu dei uma cambalhota tão perto dele que meu pé acertou em cheio sua (dele) canela e por pouco não se ouviu um “galo” cantar, tal o tamanho do calombo que surgiu imediatamente. Da minha parte senti alguma coisa no pé direito. Parecia que algo estava pendurado no meu pé.
Mas isso não nos impediu, a mim e ao Miltinho, de cantarmos e corrermos o show inteiro, que terminava com o MPB4 distribuindo flores pela platéia emocionada. Uma linda composição de Renato Rocha, “O Verbo Flor” servia para que distribuíssemos florzinhas de papel e, finalmente, sumíssemos pelas laterais do palco. Estávamos encharcados de suor, íamos direto para o chuveiro e, após um bom banho, recebíamos a garotada e seus pais, Miltinho com um belo calombo na canela e eu com um dedo do pé quebrado...
De Renato Rocha
O verbo flor é conjugável
Por quase todas as pessoas
Em certos tempos definidos,
A saber:
Quase nunca no outono
No inverno quase não
Quase sempre no verão
E demais na primavera
Que no coração poderá ficar
E ser eterna
Quando o coração conjugar:
Quando eu flor, quando tu flores
Quando ele flor e você flor
Quando nós,
Quando todo o mundo flor
Canecão/1981
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