“Aí vem chegando Ismael/ Vamos tirar o chapéu pro grande bacharel”. Este refrão anunciava a chegada de Ismael Silva ao palco do Teatro Opinião. Era o show O Samba Pede Passagem, idealizado em 1965 por Sérgio Cabral e dirigido por João das Neves, Armando Costa e Vianninha, para substituir a peça de Ferreira Gullar e Vianninha, O Brasil Pede Passagem, proibida pela censura. As estrelas eram – além do Ismael – Baden Powell e Aracy de Almeida. Participavam também: o Regional de Canhoto, com o flautista Carlos Poyares, os grupos Samba Autêntico e Mensagem, este último integrado pelo Sidney Miller, Luiz Carlos Sá, do futuro Sá e Guarabira e Sônia Ferreira, atualmente no Quarteto em Cy, o recém-formado MPB4, e o grupo Partido Alto, formado por Bide, Leléu, Zagaia e Padeirinho. Os quatro partideiros, sambistas de primeiríssima linha, é quem davam a senha para a entrada de Ismael Silva. Ao refrão, seguia-se o primeiro verso cantado pelo Padeirinho: “Senhores espectadores/ Este é o grande Ismael/ Quando fez o seu primeiro samba/ A China não tinha inventado o papel”.
A entrada daquele negro alto, cabelos brancos, sapato bicolor, terno de linho branco impecável, causava emoção. Para nós, jovens recém-saídos de Niterói, dividir o palco com Baden, Aracy e contracenar com Ismael Silva era como realizar um sonho a cada noite. Víamos naquele conterrâneo (Ismael nasceu em Niterói, em 14 de setembro de 1905) a imagem do homem do povo que fazia cultura. Tínhamos verdadeira adoração por aquele autor de sambas que aprendemos a gostar ouvindo-o cantar no memorável Zicartola, do Cartola e da Dona Zica: “Antonico”; “Se Você Jurar”, parceria com Francisco Alves e Nilton Bastos; “Para Me Livrar do Mal”, com Noel Rosa; “Adeus”, com Francisco Alves e Noel Rosa, entre outras.
Admirávamos Ismael pelo fato de ele ter sido um dos fundadores da primeira escola de samba do Rio de Janeiro, a Deixa Falar, em 1928. Ismael costumava dizer que havia criado a expressão “escola de samba” porque havia a Escola Normal, ali no Estácio onde estavam também os mestres do samba; então, nada mais justo que se falar em Escola de Samba. Admirávamos Ismael Silva porque ele era um gênio. Na sua simplicidade de bamba ele começava sua participação no show cantando o samba “Peçam Bis”: “A todos que estão ouvindo eu agradeço/ Essa atenção dispensada é mais do que mereço/ Se não gostarem não digam nada a ninguém/ Se não os outros não vão me aturar também/ Não vão fazer o que aconteceu certo dia/ Foi tanto bis que eu não podia atender/ No entretanto o que a platéia queria/ É que eu cantasse, cantasse até aprender”. E seguia cantando suas obras-primas até que, pela marcação cênica, os “meninos” do MPB4 entravam e rodeavam-no. Cabia a mim, ajoelhado, apoiar o braço em sua perna (sem fazer muito peso, eu morria de medo de amarrotar aquela calça de linho branco) e olhar para aquele negro altivo enquanto ele cantava: “Adeus, adeus, adeus, palavra que faz chorar/ Adeus, adeus, adeus, não há quem possa suportar”.
Último dia de show. A falta de público determinou que a temporada fosse suspensa. Cantei naquela noite com um gigantesco nó na garganta. Ao ouvir Ismael dizer que adeus é palavra que faz chorar, desmontei numa crise de choro incontrolável. Aprendi que, dali pra frente, eu estaria sempre sujeito às trapaças da emoção.
Hoje, toda vez que um outro nó gigantesco volta a apertar minha garganta, lembro-me do Ismael metido no seu impecável terno de linho branco, cantando: “Adeus, adeus, adeus, palavra que faz chorar (...)”.
PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.
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Sucesso sempre!!!