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"A Palavra É...", por Magro Waghabi

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          Nos anos 1960, a música era rainha nas televisões brasileiras. E a TV Record a líder de audiência, imbatível com seus programas recheados de astros e estrelas da MPB. A programação do horário nobre da Record era totalmente tomada pelos programas musicais ou por programas de desafios, que tinham a música como motivo principal.
          O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues; Bossaudade, com apresentação de Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro;  Disparada, sob o comando de Geraldo Vandré; Pra Ver a Banda Passar, com Chico Buarque, Nara Leão e o MPB4, e Jovem Guarda, com apresentação de Roberto Carlos, dominavam a audiência nos aparelhos de TV de São Paulo, ao vivo, e no resto do Brasil, reprisados com o auxílio da “novidade” do VT, o vídeo tape.
          Isto sem contar os especiais como, por exemplo, O Show do Dia 7, musical apresentado nos dias sete de cada mês, cujo nome era motivado pelo número do canal destinado à TV Record. O MPB4 era habitué de todos esses programas, contratado que era pela líder de audiência dentre as emissoras de televisão.
          Explico melhor: partimos, paralelamente à apresentação dos nossos números musicais, para performances teatrais e humorísticas, desenvolvidas em nosso passado de atores no Centro Popular de Cultura, o CPC de Niterói, filiado ao CPC da UNE (União Nacional  dos Estudantes). E tínhamos como principais criadores desses quadros, dois gênios do humor: o fabuloso Chico Anysio, e seu fiel escudeiro, o saudoso Arnaud Rodrigues. Estes dois craques do humor escreveram números inesquecíveis para o MPB4.
E um dos mais fortes era um pot-pourri, ou seja, a reunião, numa só composição, de trechos de vários sucessos musicais do passado e do presente que, encadeados em sequência, acabavam contando uma história engraçada. Era sempre um sucesso e, por isso mesmo, após sua apresentação nos programas de TV, logo os incorporávamos aos roteiros dos nossos shows, para alegria dos fãs. Mas curiosamente, num determinado dia, para desespero do nosso Aquiles.
          Entendam: um dos programas de maior audiência da TV Record era Essa Noite Se Improvisa, eletrizante desafio entre astros da nossa música. Líder de audiência, nas noites de quinta-feira, deixava grudada na TV uma multidão de telespectadores. Por estimular positivamente a memória musical de todos, logo se transformou numa das brincadeiras de maior sucesso entre crianças e adultos. Que diferença para os BBBs da vida!
          O programa era comandado por dois dos maiores apresentadores da TV brasileira, Sonia Ribeiro e Blota Júnior. Esta Noite Se Improvisa tinha o seguinte modelo: em frente a botões eletrônicos, os artistas (em número de seis, se não me engano) esperavam que Blota Júnior dissesse “A palavra é...”, seguida de uma palavra contida em uma das inumeráveis músicas do nosso cancioneiro. O artista que primeiro apertasse o botão à sua frente (uma lâmpada acendia e indicava o nome do mais rápido) ia ao microfone para cantar uma música que contivesse a tal palavra. E um corpo de jurados avaliava e dava notas dependendo da música cantada e do quanto foi cantado em relação ao total da letra.
          Silvio César, grande compositor e cantor, conta uma história engraçada sobre Chico Buarque: “Era a última rodada e o Blota anunciou: ‘A palavra é... FUTEBOL’. Silêncio. À exceção de Chico, ninguém nem tentou apertar a campainha. Andando calmamente até o microfone, o autor de ‘Carolina’ cantou um samba que continha na letra a palavra futebol”. Seis pontos. Aplausos. O Blota já ia entregar o prêmio ao “grande vencedor da noite”, quando Chico, sorrindo, confessou: “Não posso aceitar o prêmio, este samba não tem futebol na letra, eu o inventei agora”. E continuou: “É que a última ponte aérea sai às dez... Preciso ir.” E saiu batido...
Só  o Chico para inventar um samba na hora e, ainda por cima, convencer os jurados.
        Volto ao programa. Cada semana terminava com um vencedor premiado e, ao fim de certo número de programas, estes disputavam a rodada final, que tinha como grande prêmio um possante Gordini 0km (Internet pra que te quero, procurem as palavras Renault e Gordini, tá?)
         Aquiles havia entrado no programa, representando o MPB4, para não mais sair. Tinha uma ótima memória e conhecia um repertório muito grande. E com este “armamento”, chegou à grande final. Ele e a cantora Rosa Maria, dois dos finalistas, estavam a uma musica do grande prêmio, o cobiçado Gordini, zerinho, zerinho!
          Só que Aquiles estava perdendo por meio ponto. Bastava então a Rosa Maria apertar o botão... E nem precisaria cantar uma música inteira, não, bastaria uma frase para sair do Teatro Record com as chaves do “possante”.
“A palavra é.... Alegremente”, anunciou Blota Junior. É claro que Aquiles nem esperou o final da palavra para quase quebrar o botão eletrônico. Levantou-se e foi ao microfone certo da vitória. Sabia de cor a música que continha a palavra “alegremente”. Estava no papo! Ganharia os seis pontos e venceria com sobras... Começou a cantar, mas alguns versos depois, foi advertido pelo Blota:
         - “Aquiles, você começou a cantar a música certa, mas depois passou para outra música”.
          - “Como assim? Eu sei esta música de cor”.
E começou de novo e, de novo aconteceu. Mais uma oportunidade e, estupefato, Aquiles percebeu que estava cantando um dos pot-pourris criados pelo Chico Anysio e pelo Arnaud Rodrigues. Desesperadoramente (para ele, não para Rosa Maria, claro!), ele começava a cantar a música que continha a palavra, mas automaticamente, sem perceber, mudava para a música seguinte do pot-pourri cantado pelo MPB4.
         Ganhou meio ponto e, empatado com Rosa Maria, só restou a eles venderem o carro, ficando cada um com metade de um Gordini...


Enviado por Stela Regina Rosa em Sáb, 05/08/2010 - 18:44.

Que saudades desse programa, eu me lembro muito bem e brincava com meus primos, era bárbaro ...  Fora a qualidade das músicas, certo! Não tinha nada de reboletion


Enviado por IraWerneck em Sex, 05/07/2010 - 17:16.

Magro, querido. Ah! quanta saudade!

Desse tempo, bons tempos, heim?

E de você!

 

Adoro seus "causos"! Rio muito e sinto muita saudade dos nossos papos ao vivo...

Bjs 



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