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A música de duas feras

Marcelo Sirotheau e Jorge Andrade são de Belém do Pará. Recentemente eles lançaram Fantasiado (Namusic – disponível nas plataformas digitais), em que todas as músicas são de Sirotheau e as letras de Andrade – com exceção de “Firulas”, de Leandro Dias e Zé Maria Siqueira.
Além de diretor musical, Sirotheau divide com Andrade a função de produtor artístico do álbum. Ele ainda escreveu sete arranjos (três sozinho e quatro em parceria); tocou violão em sete músicas e cantou, e muito bem, cinco delas.
Em coluna recente, comentei o CD da cantora franco guianesa Lia Sophia, radicada há tempos em Belém do Pará, e disse: “as mulheres que vivem próximas à grande floresta têm tamanha ousadia que se tornam fortalezas”. Esta constatação serve, igualmente, para os homens, pois eles também carregam em si a magia do poder da música, advinda da energia dos rios e da grande floresta.
Todavia, Marcelo Sirotheau e Jorge Andrade, ao contrário de outra(o)s cantoras(es) compositora(e)s amazônicos, suas composições não contemplam os gêneros característicos da região norte, como carimbós, marabaixos, lundus, merengues nem sariás: para cantar suas emoções, dão-se a sambas, boleros e valsas. Numa jogada acertada, os dois convidaram pessoas ligadas à cena musical paraense para participar especialmente do álbum: as cantoras Andréa Pinheiro, Simone Guimarães, Karina Ninni e Patrícia Rabelo (todas com vozes marcantes, empatia e emoção à flor da pele); os cantores Hélio Rubens e Pedrinho Cavallero; e os arranjadores Afonso Machado, Tiago Amaral, Floriano, Delcley Machado e Ziza Padilha.
Muito bem mixado por Thiago Albuquerque, o CD traz doze ótimas músicas: melodias, harmonias, ritmos e versos de quem é do ramo. As cantoras brilham. Suas vozes diferenciadas interpretam a música que lhes coube de maneira admirável. E os instrumentistas, em solos, duos e improvisos, também mandam bem à beça.
Abro um parêntese: desde criança, quando Marcelo Sirotheau ainda nem imaginava que um dia a música seria fundamental para a sua vida, as pessoas ao seu redor comentavam o quanto ele se parecia fisicamente com Chico Buarque – o que é fato. Pois bem, ele cresceu e deu de cantar. Foi aí que os mais próximos passaram a achar sua voz parecida com a de Chico – é outro fato. Chegou a ser chamado de “Marcelo Buarque”. Como ele convive com tal parecença? Ora, hoje em dia ele tira de letra. Até porque, penso eu, cantar e compor parecido com Chico Buarque é um certificado de qualidade. Por exemplo, ele cantando “Ponta-Cabeça” é show! É quando sua voz, franca e afinada, mais se parece com a de Buarque. E isso também é fato. Fecho o parêntese.
Juntos, Marcelo Sirotheau e Jorge Andrade formam uma parceria que, certamente, irá levá-los da Amazônia Legal até os rincões gaúchos, passando pelos quatro cantos brasileiros, dando a conhecer a riqueza de sua música. Uma força que, graças à energia da grande floresta e à força dos rios, mais os instiga e protege.
Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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