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Carlos Careqa não nega fogo...

Ele está na área com Todos Nós (Barbearia Espiritual Discos). O álbum, produzido, mixado e arranjado por Marcio Nigro (que também tocou violões, teclado e baixo), teve Thiago Big Rabello na bateria e, em algumas músicas, contou com as percussões de Luiz Guello.
A música de Careqa tem em Nigro e Big o seu chão. Levadas vão e vêm; dinâmicas alternam-se; a letra diz algo e você entende, logo diz outra e você, inicialmente, não pesca patavina. Mas não se assuste, Carlos Careqa é assim, um eterno buscador de palavras, que com elas cria seu mundo de faz-de-conta e canta o que faz.
E ele “descobriu” uma linha composicional que lhe permite compor simplesmente bonito: da ordem ao caos, da desordem à lucidez, suas melodias têm um quê de erudito e um quê de popular.
Em meio à algazarra criativa de Careqa, a ele peço licença para misturar frases que imaginei, inspiradas em suas palavras (em itálico): não para explicar, mas para embaralhar o canto profano desse digno representante da vanguarda musical paulistana.
Abrindo a tampa, ele se metamorfoseia em seu bichinho de estimação. Cantando “Da Bolacha Resta o Farelo” (CC), sozinho e triste, seus sapatos pisam o chão do reino da música.
Meu “Coração Rasgado” (CC) morreu dilacerado no vale do Anhangabaú, onde o tatu, que nem paca é, mais parecendo uma cotia, foi morto a tacape. A guitarra arrasa! Os tambores tribais de Guello vêm com os xavantes, a entoar seus cânticos viris.
O “Dente-de-Leão” (CC) que roeu a roupa do rei, quebrou. Com o dente despedaçado, o leão ficou banguela e agora nem leão parece ser. No final, a música ganha levada caribenha.
“A Menina Chorou” (CC), quem deixou ela chorar? Foi o berimbau do Guello que a entristeceu? Ou foi o teclado do Nigro que a assustou? Ela vê uma estrela despencar do céu e sente que o seu destino pode ser doído. O canto malemolente vira roquenrrol, mas logo desvira... e o teclado improvisa.
A “Cabeça de Bailarina” (CC) foi parar em cima do pescoço da menina. A melodia é bonita. Dobrando a voz, Careqa recita como num jogral. O que se passa na caixola da bailarina? Ela rodopia. E voa. E canta e voa.
“Todos Nós” (CC) percebemos o canto que vem do poeta, que toca um acordeom sintetizado. Do meio da solidão, penando feito alma desgarrada, o poeta tem muito a sentir. A dor quando é tanta, tonteia e tenebrosas assombrações vêm à tona.
Bela é a “Ruiva” (CC) a quem ofereço minha boca e o céu também. Enquanto conto suas sardas, mergulho. Com medo, me ponho a lembrar o que só um poeta pode  dizer: mãe não é tudo.
O violão inicia “Mãe Não É Tudo” (CC). Careqa dobra a voz. Antes mesmo de chorar, a criança sente o poder da mãe que um dia ela será. E a vida é tão boa que morrer (pra renascer) ainda vai ser um bom negócio.
“Morrer Ainda Vai Ser Um Bom Negócio” (CC), o trabalho pode esperar. A saúde pode piorar. E se eu chorar, o fracasso me refará. A levada é suave e é densa... Ah, é levada de Carlos Careqa.
A ele o meu respeito.
Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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