Acompanhe-nos:

Bravo!

O selo SESCSP lançou um dos encontros mais surpreendentes e instigantes dos últimos tempos: Antonio Meneses com André Mehmari.
Eles gravaram AM60 AM40 (título referência a coincidência  das letras iniciais dos dois nomes e os números, a idade deles), com sete composições do próprio Mehmari e quatro obras de Johann Sebastian Bach, além de composições de Astor Piazzolla, Alberto Ginastera, André Vitor Corrêa e Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
Mehmari, compositor e pianista tão popular quanto erudito, é um virtuoso. Além de shows, realiza concertos com orquestras internacionais, para as quais compõe peças eruditas. Sem preconceitos, ele anota: “Eu vejo [a música] muito mais através das intersecções e dos encontros do que das barreiras”. Assim é André.
Meneses é violoncelista erudito, um dos maiores do mundo. Fui assisti-lo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no início dos anos 1980: a sonoridade de seu violoncelo era, para mim, inexplicável – ao contato dos dedos e do arco, ele vibrava como se fora um instrumento místico. Pois bem, gênio que é, ele não temeu entregar-se à primeira experiência de ser também popular. Assim é Antonio.
Produzido, gravado e mixado por Mehmari em seu próprio estúdio, o repertório ajuntou experiências musicais e de vida dos dois.
A finura do cello abrindo o CD com “Arioso da Cantata BWV156” (Bach) atesta o quanto Meneses se dá às adaptações feitas por Mehmari.
Composta por este último, a “Suíte Brasileira para Violoncelo e Piano” tem passagens que vêm da alma do pianista. Nos movimentos “Prelúdio”, “Choro-Canção”, “Frevo”, “Valsa” e “Baião”, ouve-se riquezas harmônicas, melódicas e rítmicas, legítimo sumo de música popular-erudita brasileira.
“Prelúdio”: o protagonismo é do cello; a beleza serve-se dele para ser ainda mais rica.
“Choro-Canção”: a brasilidade está nas pautas; piano e cello atiram-se a elas com amor, ao som do gênero tradicional.
“Frevo”: os dois iniciam; a pisada faz o som do cello lembrar uma orquestra de sopros – “miragem musical” a que o ouvinte está sujeito.
“Valsa”: Meneses finca raízes brasileiras na melodia de Mehmari; lírica, a valsa roda e gira do piano ao cello.
“Baião”: prepare-se, leitor, pois você poderá sentir o efeito de uma nova “miragem musical”: resfolegando com o piano, o cello vira sanfona.
Após ouvirmos os arranjos de Mehmari para duas obras bastante conhecidas de Bach, a “Cantata” e a “Ária da Suíte para Orquestra nº 3” (que fecha o CD), vale compararmos tais adaptações à de Alexander Siloti para o “Adágio da Tocata em Dó Maior para Órgão” (Bach), e a do violoncelista Pierre Founier, para “Chorale Prelude” (Bach): Mehmari, Siloti e Fournier releem Bach a seu jeito, cada um dando ao mestre o seu melhor. Suas atuações tocam em nossa falta de jeito para ouvir música com a qual não estamos acostumados – enigmas do desconhecido.
Em AM60 AM40, Meneses e Mehmari tocam como se um captasse a genialidade do outro, mas uma semicolcheia antes do movimento dos dedos.
Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.