Baden Powell e seus afro-sambas são reverenciados por músicos virtuosos

Philippe Baden Powell, pianista e arranjador, filho do grande Baden – um dos maiores violonistas brasileiros de todos os tempos –, lembrou-se de que seu pai deixou anotado, numa partitura, o telefone de um “cara da pesada” que o encantou conhecer e com o qual criou afinidade instantânea: o violonista e arranjador Mario Adnet.

Dessas ligações nasceu o projeto de um CD que rememoraria todos os sambas concebidos por Baden, inspirados no arrebatador mundo cultural afro-brasileiro.

Unidos pelo anseio de rever obra tão densa, os dois músicos partiram para viabilizar a (grande) ideia. Nascia um álbum histórico, Afrosambajazz – A música de Baden Powell (Biscoito Fino).

No repertório, todos os afro-sambas selecionados são de Baden Powell, alguns feitos em parceria. Desses, sete inéditos: “Ritmo Afro” (parceria com Philippe), “Canto de Iansã” (com Ildásio Tavares), “Ladainha de Iansã” (com Silvia Powell, sua mulher e mãe de seus filhos Philippe e Marcel), “Caxangá de Oxalá”, “Nhem Nhem Nhem”, “Lamento de Preto Velho” e “Domingo de Ramos” (estes quatro só de Baden). Três são pouco conhecidos: “Sermão” e “Domingo de Ramos” (com Paulo César Pinheiro) e “Alodé” (Baden). E finalmente, cinco foram feitos com Vinícius de Moraes, todos clássicos: “Canto de Ossanha”, “Berimbau”, “Canto de Xangô”, “Lamento de Exu” e “Canto de Iemanjá”.

Para interpretar tamanha criatividade, foi arregimentado um tão numeroso quanto competente grupo de instrumentistas: Marcos Nimrichter (piano e acordeom), Jorge Helder (baixo), Jurim Moreira (bateria), Armando Marçal (percussão), Ricardo Silveira (guitarra), Henrique Band (sax alto), Eduardo Neves (flauta e sax tenor), Teco Cardoso (sax baritono), Jessé Sadoc (flugelhorn e trompete), Everson Moraes (trombone), Philip Doyle (trompa), Andrea Ernest Dias (flauta), Vitor Santos (trombone), Cristiano Alves (clarone e clarinete), Hugo Pilger (Cello), Antonia Adnet (violão sete cordas), Joana Adnet (clarinete), Aquiles Moraes (trompete) e Marcel Powell (violão). Nos solos vocais, Mônica Salmaso, Maucha Adnet e Carlos Negreiros.

Os arranjos são divididos igualmente entre Mario Adnet e Philippe Baden Powell. Mario também toca violão, e Philippe, piano. Assim, o que parecia impossível aconteceu: os afro-sambas de Baden foram revigorados e tornados ainda mais intensos.

O CD abre com “Canto de Xangô”. O piano de Marcos Nimrichter seduz amparado pelo baixo, pela bateria e pela percussão. Os saxes alto, tenor e barítono se encarregam de imprimir mais suingue cadenciado à levada.

“Domingo de Ramos” fecha o excelente CD concebido por dois grandes músicos. E o violão de Marcel faz as vezes de dono da casa para o acordeom e o baixo, para o clarone e o clarinete, para o cello e a flauta, todos reverentes ao talento amazônico do mestre.
Tudo flui em Afrosambajazz… Baden Powell deve estar orgulhoso de se ouvir em seus filhos e em muitos de seus discípulos.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4 (Publicada originalmente em junho 2009)